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Fórum do Corinthians

Entrevista do Alessandro no GE

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Lucas 96 posts

Publicado no Fórum do Meu Timão em 27/06/2017 às 14:01
Por Lucas Sena (@lucassena)

GE: Encarar concentração e viagens é mais fácil para o dirigente do que para o jogador?

Alessandro: Eu não diria mais fácil, mas é diferente. Quando eu era jogador, chegava e ficava realmente concentrado. Chegava, concentração total na alimentação e descanso. Hoje você chega, conversa com supervisor, dá uma monitorada para ver se está tudo ok. Atende a torcedores... Acaba sendo um pouquinho mais calmo, digamos assim. Não é um momento que te traga algum tipo de problema. No máximo um suporte técnico, algo que o treinador precise. Mas você tem tempo para receber agentes dos atletas, sempre presentes nas capitais, querem conversar com a gente. Não digo mais fácil, mas é calmo.

GE: Você sempre foi de fala mais mansa, um cara mais calmo. Essa personalidade ajuda na hora de lidar com os mais variados problemas que um dirigente enfrenta?
Alessandro: – É do perfil. Nunca fui um cara de alterar a voz. Ficava mais sério durante os 90 minutos do jogo, mas não sou de, numa reunião com empresário, qualquer coisa, alterar a voz. Gosto de pregar pela verdade. Discutir, fazer uma cena, levar vantagem... Isso não é do meu tipo. Então é algo positivo, porque direciona para o lado do equilíbrio. Quando estou com o presidente ou com o Flávio (Adauto, diretor de futebol), aí a gente extrapola um pouco. Acaba extravasando, abrindo um pouco mais seu posicionamento, reclamando. Mas, no dia a dia, procuro passar um equilíbrio a atletas, comissão técnica, funcionários. Assim, mais sereno, temos harmonia.

GE: O fato de ser ex-atleta facilita o diálogo, não?
Alessandro: – Facilita, porque você acaba compreendendo os dois lados. Do atleta, do agente, quando não está na mesma linha você detecta logo. Acaba sendo um cenário mais claro para todos.

GE: O agente é a parte mais difícil de lidar? É a figura mais 'chata', digamos assim?
Alessandro: – Depende, por incrível que pareça. Tem alguns agentes muito habilidosos, sabem qual é a tática do clube, sabem o que é importante para o Corinthians. Aí você não perde tempo, só discute a parte comercial do atleta e vida que segue. Outros, infelizmente, acabam batendo muito em alguns pontos. Ou o clube tem de ceder para não perder a operação, ou o empresário pede uma segunda, uma terceira, uma quarta reunião. Aí você precisa ter paciência. Alguns casos são mais desgastantes.

GE: Quais?
Alessandro: – Nesse período de dezembro/janeiro, o primeiro em que participei diretamente das negociações, teve a questão do Jadson. Uma demora para romper o contrato dele na China, confrontou com nossa ida ao Torneio da Flórida. O caso do Rodriguinho foi difícil também, porque tinha um clube querendo fazer uma aquisição. Apresentou um contrato importante para ele, mas não para o clube. Tem de ir mostrando as coisas para que todo mundo seja feliz. Mas tem agentes conhecedores do clube e com esses a gente não perde tempo.

GE: Muito se fala que quando o jogador quer sair, ele sai. Como o Corinthians faz para manter seus jogadores? E como lidar nesses casos?
Alessandro: – Olha, eu tinha esse discurso claro comigo mesmo há um tempo atrás (de quando o jogador quer sair, sai). Agora, já tenho olhar um pouquinho contrário a isso. E é um desafio do clube, meu também, no caso, do diretor, do presidente, mostrar ao atleta que não é somente uma decisão dele. Tem de mostrar ao jogador. Expliquei ao Rodriguinho todas as reuniões que tivemos, tem coisas importantes, divisão dos direitos econômicos, agentes envolvidos, tem de ter habilidade para discutir tudo isso. Nesse meio termo, havia também a discussão sobre a renovação do contrato dele. Se fosse um valor financeiro muito importante ao clube, claro que aceitaríamos. Mas era um valor muito baixo. Para ele era muito bom, para o clube não. O Rodriguinho não, mas tem atleta que olha sempre para si próprio. Quando um atleta está muito convicto a sair, mas o lado comercial não é interessante para o clube, vale a pena você discutir, dificultar um pouquinho...

GE: Muitos jogadores têm essa cabeça?
Alessandro: – Depende bastante do agente também, das pessoas que estão envolvidas. Se todos olharem somente para o atleta, vai gerar desgaste. Mas se todo mundo ceder um pouco, entender que o clube pode ser prejudicado... Se todos pararem um pouquinho para pensar que o Corinthians também é importante, não só a operação, as coisas caminham melhor. Quando isso não acontece, a gente sofre bastante. Aí tem família pressionando, agente... Temos de fazer reuniões com quem quer que seja para falar tudo de maneira muito aberta e clara. Mas estou mudando um pouco meu conceito sobre isso de o atleta querer sair e a gente ter de abrir mão.

GE: Agora estamos na época de janela de transferências...

Alessandro:– E que janela!

GE: Fala-se muito em sondagens, consultas, propostas. O que houve de efetivo até hoje?
Alessandro – Para o torcedor corintiano entender. Teve uma proposta oficial pelo Rodriguinho (do Fenerbahçe, no início do ano). Faço até uma crítica ao clube turco, que veio para uma única reunião querendo já realizar a compra. Um único contato, e por um valor que só esse clube entende ser de mercado.

GE: Era um valor bem baixo, então?
Alessandro: – Sim! Mas foi passado, aconteceu. Teve uma consulta pelo Arana, isso realmente aconteceu, e uma proposta pelo Balbuena. Não lembro de nenhuma consulta por qualquer outro atleta. Há muitas consultas para empréstimo, isso sim. Clubes do Brasil, inclusive, veem um jogador que não estamos utilizando tanto, e ligam. Mas, muitas vezes, fizemos um investimento. Marquinhos Gabriel, Giovanni Augusto... São atletas que entendemos que vão dar retorno. Então, não vejo uma saída deles por empréstimo. Difícil discutir uma situação comercial como essa.

GE: A situação do Balbuena está bem resolvida?
Alessandro: – Foi tudo muito rápido e claro, conversamos com ele, com o empresário. Era um valor muito abaixo. Entendemos que, hoje, um atleta titular do Corinthians não vale 3 ou 4 milhões de euros. Me desculpe. São valores muito abaixo do mercado. Gentilmente, vamos sempre receber ofertas, respondê-las, mas não vamos fazer qualquer negócio. O torcedor pode ter certeza disso. Se sair algum atleta, será por algum valor muito importante para o clube. Não vamos vender só para tapar buraco, mas sim para deixar o clube em situação financeira tranquila. Mesmo assim, não é o que desejamos. Nosso desejo é a manutenção.

GE: Sobre contratações: quantas ligações você recebe por dia com sugestões de jogadores?
Alessandro: – Nossa... É impressionante, isso chama a atenção. Às vezes, eu e o Flávio Adauto brincamos para ver quem recebeu mais mensagens no dia. Muitas são indicações importantes, empresários que entendem do que o clube precisa. E outros oferecem aleatoriamente. Se sai uma notícia hoje que o Corinthians quer um atacante de área, sua caixa de mensagens lota na hora. Tanto nomes de atletas que ainda não têm condições de jogar aqui, quanto outros que o clube não vai conseguir trazer, um Cristiano Ronaldo da vida. São pessoas que não entendem o Corinthians e vão mandando aleatoriamente. Agentes que talvez sejam novos no mercado mandam 10,13,15 sugestões, e você não consegue ver nenhuma. Não pode ser assim. Os caras mandam um cardápio que parece de restaurante. Aí fica difícil.

GE: Já teve algum caso muito absurdo?
Alessandro: – Tem. Tem atletas jogando em clubes europeus que não temos a menor condição de viabilizar. E atletas que estão mal tecnicamente, muito abaixo... Tem as duas pontas. Atletas que fariam que gastássemos 20,25 milhões de euros. E outros que não têm condições. Os caras não tinham nem de oferecer. Temos absurdos nos dois extremos. Não vou falar nomes aqui, porque senão pode bombardear. Tivemos uma experiência com o Drogba que não foi tão positiva assim (risos). Mas tem atletas circulando por aí que jogaram em Real Madrid, Barcelona, Manchester United... E tem cara que liga toda semana oferecendo.

GE: Com tantas ligações, mensagens, reuniões... Você consegue dormir direito? Sobra tempo para o descanso?
Alessandro: – Eu tento, mas é difícil. Infelizmente, às vezes, me pego com dificuldade para dormir, acordar, é difícil ter uma noite de sono bem tranquila. Dormir meia-noite, acordar às 7h, 8h. Os dias em que consigo dormir melhor são aqueles de concentração. Você conversa com o pessoal, acaba indo para o quarto mais cedo, e no dia seguinte você pensa só no jogo. Esses são os dias mais calmos, principalmente de sábado para domingo.

GE: Haja café!
Alessandro: – Ah, o cafezinho sempre. Mas não muito, para não ficar muito acelerado, com uma quantidade absurda de cafeína. De manhã tomo umas três xícaras dessa, daqui a pouco vem o almoço e você toma mais uma. Perto do jogo, mais duas. Na hora do jogo, você está mais ligado do que quem está em campo. Muito acelerado, não tem jeito. Mas o cafezinho acaba sendo um parceiro.

GE: Mesmo depois do fim da carreira, você tem se preocupa com a parte física?
Alessandro: – Cuido bastante da alimentação. Procuro ser bem regrado. Tenho uma noiva muito dedicada a isso, professora de educação física. Então tenho essa ajuda. Diminuí muito minhas atividades físicas, dificilmente consigo fazer alguma coisa. No clube, no hotel, quando fico dois ou três dias, dá para fazer alguma coisa. Tinha o hábito de ir à academia muito cedo, não consigo mais. À noite também fica difícil, o cansaço é maior. Diminuí muito, então tento controlar na alimentação.

GE: E ainda há tempo para bater uma bolinha?
Alessandro: – Não, não consigo. O último futebol que tive foi lá na Flórida, aquele jogo das estrelas que foi bem rápido. Antes disso, fiquei mais de um ano sem jogar. Eu estaria naquele jogo tradicional da imprensa, mas infelizmente não fizemos. Em três anos, estou com um joguinho só. Meu histórico de minutagem está muito abaixo (risos)... Fraquíssimo.

GE: Nessa função, você consegue passar mais tempo com a família? Ou continua difícil?
Alessandro: – Minha família hoje tem sido o Corinthians, contato com os funcionários, com o clube. Depois tenho minha noiva, com quem passo pouquíssimo tempo junto. Minha filha vejo raramente, sinceramente. Eu tinha me organizado para passar uma semana com ela agora, já que vem para São Paulo passar a primeira semana de férias. Mas, coincidentemente, pintou esse jogo da Sul-Americana, fora de casa. Então vou ter de dar uma segurada nesse período. Mas é difícil, eu e o Flávio vamos a todos os jogos, então você se dedica muito à função. Você acaba abrindo mão da convivência familiar. Minha filha (Ana Clara) está com quase 11 anos, então tive de abrir mão desse momento, mas vale muito a pena se dedicar a um clube pelo qual você tem tanto carinho.

GE: Sua filha vive onde?
Alessandro: – No Rio de Janeiro. Recentemente, fomos para o jogo contra o Vasco, e nem assim consegui vê-la. Chegamos lá muito tarde, 23h, ela já estava dormindo. No outro dia acorda cedo para ir à escola. Quando eu teria oportunidade de ficar com ela, já era o horário do jogo. Mas é normal, vamos fazendo aquele FaceTime (aplicativo de conversas em vídeo) para matar a saudade um pouquinho.

GE: Em um ano no cargo, qual foi a decisão mais difícil que você tomou?
Alessandro: – A mais difícil... Tem muitas, muitas decisões. Mas acho que a questão do Cristian. Ter de afastar um atleta profissional, que vinha se manifestando pela imprensa. Na terceira vez, a gente parou, conversou e foi ver o que estava acontecendo. Mas, o que te leva a afastar um atleta? Você discute, coloca na balança, e tenta evitar ao máximo. Às vezes, não tem como evitar. O atleta estava em uma direção muito contrária à nossa. Estava todo mundo na mesma direção, e enxergamos que ele estava em outra. Nenhum prazer nisso. Não digeri ainda a decisão de ter de afastar um atleta. Qualquer pessoa que estivesse no meu lugar entenderia isso. Nosso desafio é proporcionar uma boa condição a todos os jogadores. Tínhamos nossos motivos, fizemos isso depois de muita convicção. Mas é muito ruim.

GE: Desde que você parou, viu nomes como Ralf e Cássio repetirem seu gesto, levantando taças. Dá saudade?
Alessandro: – Dá, certeza que dá. Esses dias eu estava almoçando no CT, por volta das 14h. Sentei, e estava passando um jogo da Libertadores. Estava com o Mauro (da Silva, observador técnico), o Pablo estava fazendo um lanche e até me perguntou alguma coisa, até me esqueci. Era uma primeira final de Libertadores. Dá uma saudade. Você se vê há quatro, cinco anos atrás, como atleta profissional, dá uma saudade absurda.

GE: Falando em Libertadores. Ainda dá um friozinho na barriga ao ver aquele lance com o Diego Souza, contra o Vasco?
Alessandro: – Ah, eu procuro nem ver mais aquilo (risos). Mas, a cada proximidade de se completar um ano a mais da conquista, começam a me perguntar disso. Eu sempre brinquei e vou brincar muito com a situação, porque acho que cabe. Foi um lance muito duro, pesado naquele momento, mas o final dele foi muito especial. E eu convivo com o Cássio hoje, a gente sempre acaba olhando um para o outro, não tem não como recordar que o gigante fez uma defesa que teve importância grande em minha sequência no clube.

GE: Você ainda agradece ao Cássio todos os dias por isso?
Alessandro: – Deveria, né? Os agradecimentos hoje são outros, por tudo que ele vem fazendo, pela retomada, pelo nível em que ele se encontra para nos ajudar.

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