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A vida é de uma crueldade absoluta, uma sucessão de tragédias que só os mal intencionados itentam explicar com números frios e planilhas de Excel. No Corinthians, porém, a tragédia não é o drible que não sai ou o gol que entra como uma punhalada no último minuto das prorrogações. A verdadeira tragédia corintiana é a metástase da gravata, é a ocupação do Parque São Jorge por uma casta de sujeitos de sorriso plástico e hálito de repartição pública que sequestraram a alma do povo para alimentar egos e bolsos.
Olhem para a galeria de retratos recentes e sintam o calafrio que percorre a espinha do torcedor. O que vemos é a santíssima trindade do descalabro: Andrés Sanchez, Duílio Monteiro Alves e Augusto Melo. Cada um, a seu modo, contribuiu para a construção desse abismo que hoje ameaça engolir o clube mais popular do país. Andrés, com sua empáfia de dono do sol e da lua, plantou as sementes de uma dívida que cresceu como mato em terreno abandonado. Duílio, o herdeiro de uma aristocracia de bastidor, assistiu ao desmoronamento com a passividade de quem observa a chuva da janela de um palacete. E Augusto Melo, que surgiu com a promessa de ser o novo, o redentor, revelou-se apenas mais um capítulo dessa comédia de erros, mergulhando o clube em um mar de desconfianças e amadorismo que faz o torcedor morder o beiço de ódio.
Mas não se enganem: esses homens não governam no vácuo. Eles são o produto de uma conivência obscena, de um ecossistema de silêncios comprados e aplausos interessados. Há, nos corredores do clube, uma massa de sócios e conselheiros que se comporta como uma corte de Luís XIV em pleno subúrbio paulistano. Os conselheiros, especialmente os vitalícios — esses dinossauros que se alimentam de prestígio, almoços grátis e a pequena vaidade de ter um crachá no peito —, são os fiadores da ruína. Eles assistem à destruição do patrimônio com a indiferença dos justos, contanto que seus privilégios de clube social, suas piscinas e suas churrascadas de fim de semana permaneçam intocados. É a conivência do 'toma lá, dá cá', onde o futuro do Corinthians é trocado por um favor político ou uma indicação de compadrio.
Essa elite de alambrado, que se diz guardiã das tradições, é, na verdade, a carcereira da modernidade. Eles blindam os incompetentes e protegem os mal-intencionados porque o sistema lhes convém. Enquanto o torcedor chora no asfalto, o conselheiro vitalício sorri no mármore, blindado por um estatuto que mais parece um testamento de impunidade. Eles são o cupim que não apenas rói, mas que sustenta o teto que está prestes a desabar sobre a cabeça de trinta milhões.
Fala-se em SAF, a Sociedade Anônima do Futebol. O termo soa frio, asséptico, quase um pecado para quem cresceu no cimento quente das arquibancadas. O romântico dirá: 'Vão vender o nosso sangue!'. E eu respondo, com a autoridade de quem já viu muitas viúvas chorarem no velório errado: Que vendam! Mas entendam bem: não precisamos da SAF pelos milhões de dólares, pelos xeques árabes ou pelos fundos americanos. O dólar é volátil, o euro é soberbo e o ouro escurece. Precisamos da SAF como um exorcismo sanitário para aniquilar essa estrutura arcaica.
O dinheiro, no Corinthians atual, é apenas um detalhe técnico. A verdadeira urgência é a faxina. Precisamos de uma estrutura empresarial não para enriquecer acionistas, mas para ter o poder de apontar a porta da rua para esses sócios coniventes e conselheiros de aluguel. Livrar-se dessa linhagem de dirigentes e da 'nomenclatura' que os sustenta é mais urgente que contratar o melhor camisa 10 do planeta. É melhor do que qualquer aporte financeiro, porque o dinheiro nas mãos dessa gente desaparece como o amor em noite de adultério: sem deixar rastro, apenas o amargor.
O corintiano é um masoquista por natureza, mas até ele cansa de ser chicoteado por mãos sujas. Há uma pureza no sofrimento do jogo, mas não há pureza nenhuma na omissão de um Conselho que vê o clube ser saqueado e permanece mudo, como se a honra do Corinthians valesse menos que um convite para o camarote. O dirigente corrupto e o conselheiro omisso são as duas faces da mesma moeda falsa. Enquanto o clube for refém de Andrés, dos herdeiros de Duílio, das trapalhadas de Augusto Melo e do silêncio cúmplice de seus sócios, qualquer investimento será como jogar pétalas de rosa em um pântano; o pântano engole tudo e continua fétido.
Precisamos utilizar a frieza do capital para resgatar o calor da paixão. Que venha a SAF, que venha o mercado, que venha osic a quatro — desde que levem com eles essa gente que trata o manto sagrado como pano de chão para limpar suas falcatruas e manter seus pequenos feudos. Livrar-se desse sistema é a única salvação possível. Sem essa faxina, o Corinthians corre o risco de se tornar apenas uma nota de pé de página nos tribunais. Fora os mercadores do templo e seus cúmplices de galeria! O Corinthians não precisa de um dono para o seu futebol, precisa de um carrasco para as chaves da porta da rua, para que esses senhores e seus apoiadores saiam e nunca mais ousem voltar.
em Bate-Papo da Torcida > A SAF como Antídoto à Metástase dos Conselheiros

