Jédson Correa
Que sic.
em Bate-Papo da Torcida > André, o negro retinto e corinthiano, não existe o benefício da...
Em resposta ao tópico:
André, negro retinto, foi expulso ontem. Não por uma entrada criminosa, dessas que estalam canelas. Não por um soco, uma cusparada, uma facada imaginária. Não. André foi para o chuveiro mais cedo porque colocou a mão na própria genitália. Fez o gesto. O gesto obsceno. Aos olhos do mundo, aos olhos do var, aos olhos de Flaco López — que, diga-se, tocou no próprio saco umas quinze vezes para chamar a atenção do juiz —, André cometeu o crime impensável: ousou segurar o que é seu e olhar para um branco.
O clássico era quente. Corinthians e Palmeiras na Arena. Suor, pus, sangue de arquibancada. E eis que Andreas, o outro, o branco, o que boicotou a marca do pênalti, aquele a quem deram o tal do “benefício da dúvida”, fez osic. Memphis escorregou na bola como um patinador amador, perdeu a penalidade, e tudo bem. “É do jogo”, disseram. “O gramado”, disseram. “Acidentes acontecem”, disseram. Para Andreas, sempre há uma sombra onde se esconder. Para André, não. Para André, o sol bate sem piedade. E a mão no saco vira prova cabal, vira laudo, vira sentença.
Antes que me joguem pedras: sou a favor da expulsão pelo gesto obsceno. Gesto feio, sim. Desnecessário, sim. Mas a pergunta que não quer calar — e que ninguém faz na mesa redonda, na coluna social, no Twitter dos moralistas — é a seguinte: existiu, para André, o benefício da dúvida? Ele inclinou o quadril? Ele murmurou algo para o Andreas? Ele fez ameaça de morte com o dedo mindinho? Não. Apenas agarrou o que Deus lhe deu e olhou. Olhou fixo. E esse olhar, meus senhores, foi o que matou. Porque um negro retinto que olha para um branco, no fundo do fundo, já é culpado. O que os olhos veem, o apito confirma.
Isso não é caô de vestiário. Isso é o tal do racismo estrutural. Duas linhas, como pediu o freguês: é o medo e o nojo que a sociedade plantou na cabeça do homem antes mesmo de ele saber o que é cor. É o preconceito que não precisa estar escrito na placa da loja para funcionar; ele está no ar, no apito, no replay câmera lenta.
E olhe que nem estou dizendo que todo mundo é racista. Não. O inferno é mais sutil. O inferno é a dúvida que nunca vem para o negro. Vamos aos fatos frescos, ainda cheirando a grama: Gustavo Gómez, zagueirão palmeirense, deu uma cabeçada na nuca do Garro. Na nuca! Não foi no ombro, não foi no peito. Foi na nuca, lugar de matar índio em filme de faroeste. Para o paraguaio, existiu a dúvida: “disputa normal”, “carga de jogo”, “acontece”. E aconteceu: nada. Flaco López, o mesmo das quinze sic varianas, deu cotovelada no Bidon. Nada. Nem Var. Mas André põe a mão na virilha e o mundo cai.
O Corinthians jogou com nove heróis. Nove! Empatou com o líder, fez partida de cachorro louco, suou a camisa que pesa trinta quilos de história. Mas o que vai ficar? As expulsões. Sempre as expulsões. O Corinthians é julgado em tribunal de exceção. Se é preto e é Corinthians, a culpa nasce antes do gesto. O árbitro já entra de toga.
E já que falamos em tribunal, fica aqui o repúdio ao energúmeno que chamou Carlos Miguel de macaco na própria torcida corinthiana. O clube se manifestou, fez o certo. Mas e os “Mussolinis” da arquibancada adversária? Cadê a nota? Cadê a punição? Sabemos que não virá. Sabemos que o silêncio é a outra face do racismo.
Por fim, uma coincidência: a presidente leila Pereira, aquela da crefisa que disse ao presidente do INSS que não faz caridade enquanto empurra empréstimo de 5,88% para aposentado, comanda um clube que nunca está na dúvida. O árbitro Ramon Abati Abel, que ano passado não deu um pênalti escandaloso contra o Palmeiras — daqueles que cego vê —, foi afastado do Brasileirão. Punido? Não. Premiaram-no. Este ano, apitará a Copa do Mundo. O mundo, meus caros, é uma vasta coleção de coincidências. Só que para o André, negro retinto, as coincidências acabam quando ele coloca a mão onde bem entende. Aí, meu amigo, a dúvida morre. E o vermelho nasce.

