Conselheiro do Corinthians aponta 'excesso' em reforma do Estatuto e cobra celeridade em processos
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Por Felipe Sales, Daniel Keppler e Fabio Marinho

Jorge Kalil comentou as audiências públicas e cobrou celeridade de processos na Comissão de Ética
Gustavo Lima / Meu Timão
Na última segunda-feira, o Teatro do Corinthians, no Parque São Jorge, sediou a última audiência pública sobre a reforma do Estatuto do clube. Diferentemente das anteriores, porém, o encontro foi restrito aos conselheiros e utilizado pela Comissão de Reforma do Estatuto para esclarecer dúvidas dos membros do Conselho Deliberativo (CD) sobre o anteprojeto.
O conselheiro vitalício e ex-diretor de futebol Dr. Jorge Kalil avaliou a sessão como positiva, ressaltando o caráter democrático do clube e destacando que o Estatuto alvinegro caminha para se tornar um dos mais modernos do país.
“Muito positiva, porque mostra que o Corinthians é um time democrático e, aliás, sempre avançando em reforma estatutária, em propostas extremamente positivas e construtivas para o melhor do Corinthians, não é? Então, a gente faz aqui um debate amplo, aberto a todos os conselheiros e conselheiras. Então, o Corinthians está dando um passo muito grande na sua reforma estatutária e demonstrando o quanto o Corinthians é democrático e progressivo”, afirmou em entrevista na zona mista após a audiência.
“O Corinthians está progredindo para uma reforma estatutária que poucos clubes do Brasil possuem. Acho positiva, porque desta vez foi convocado o Conselho para debater isso, porque caberá ao Conselho votar qual será a proposta a ser levada ao associado. Portanto, o Conselho seria o primeiro passo para levar ao associado, para que o associado vote de maneira a essa reforma estatutária”, completou.
Jorge Kalil esteve presente em algumas das 11 audiências realizadas ao longo do processo. Na primeira delas, inclusive, protagonizou uma breve discussão com Romeu Tuma Júnior, presidente do CD, em razão do adiamento da sessão que votaria o Artigo 21 do Estatuto, que trata da possibilidade de o Fiel Torcedor votar nas eleições do clube. À época, Tuma justificou a mudança por conta da partida do Corinthians contra o Fortaleza, na quarta-feira.
Um ponto que chamou a atenção ao longo das dez audiências abertas à imprensa, todas acompanhadas pelo Meu Timão, foi a baixa participação dos conselheiros. Kalil ponderou que os membros do CD já tiveram acesso prévio ao conteúdo debatido e reforçou a importância da presença em momentos decisivos do clube.
“Excelente pergunta, porque nós, conselheiros, recebemos anteriormente um anteprojeto, o anteprojeto de todas as pautas a serem colocadas aqui em discussão. E foi aberto para a população corinthiana, especialmente ao torcedor corintiano, à mídia, essas pautas que não eram de conhecimento, como os conselheiros têm esse conhecimento. Essas pautas já foram estudadas pelo conselheiro. E hoje, realmente, após amplo debate, foi chamado o Conselho para debater uma redação final”, iniciou.
“Eu creio que o conselheiro do Corinthians tem que estar presente sempre. Eu até disse, com muito respeito ao Clube Esportivo da Penha, quem não estiver disposto a estar aqui para debater o Corinthians não pode ser conselheiro do Corinthians, não é? Vai ser conselheiro, com respeito, do Clube Esportivo da Penha, que é próximo aqui. Por isso que eu sinto pelo Esportivo da Penha, cuja mensalidade é até maior do que a do Corinthians. Então, o conselheiro do Corinthians tem que ter responsabilidade, tem que estar presente, tem que debater, e creio que nós estamos aqui para isso. Essa é a nossa função, essa é a nossa obrigação”, afirmou.
Como apurou a reportagem, ao fim de cada audiência pública, a Comissão de Reforma do Estatuto elaborou um parecer e encaminhou o material por e-mail a todos os conselheiros. Além disso, as reuniões foram gravadas e estão sob posse do CD, garantindo acesso integral aos membros do Conselho.
Em outro momento, Dr. Jorge Kalil foi questionado sobre a ausência de algum tema relevante nas discussões. Para ele, o cenário é o oposto, onde há um volume elevado de propostas, que extrapola uma simples reforma e se aproxima da construção de um novo Estatuto.
“Não, na minha avaliação, há um excesso até de propostas, porque eu digo que nós estamos tratando de uma reforma estatutária e não de fazer um novo Estatuto do Corinthians. Seguramente, algumas foram debatidas, algumas serão excluídas dessas propostas, mas uma reforma estatutária não quer dizer que eu tenho uma residência e vou derrubar a minha casa para construir uma nova. Eu tenho uma residência em que eu vou mudar alguma coisa, e algumas coisas de muita relevância, sem dúvida alguma, serão aprovadas. Agora, nem todas nós podemos dizer que serão aprovadas. Existem questões extremamente polêmicas que devem ser votadas e que a democracia prevaleça”, comentou.
O Estatuto atual do Corinthians foi redigido em 2008 e, ao longo dos anos, passou por ajustes pontuais, sendo a última atualização em 2016. Um dos principais argumentos para a ampla reformulação é a defasagem do texto diante da Lei Geral do Esporte (LGE), sancionada em 2023, o que reforça a necessidade de modernização e adequação jurídica do clube.
Caso Andrés Sanchez e Duilio Monteiro Alves
Horas antes do início da reunião, o Conselho Deliberativo (CD) do Corinthians suspendeu os processos internos relacionados ao uso do cartão corporativo nas gestões de Andrés Sanchez e Duilio Monteiro Alves. A decisão, tomada pelo presidente do órgão, Romeu Tuma Júnior, tem como objetivo evitar eventuais acusações de desobediência por parte de membros das comissões, uma vez que há medidas cautelares do Ministério Público de São Paulo que restringem contato e acesso ao Parque São Jorge.
Questionado sobre o tema, o conselheiro vitalício Dr. Jorge Kalil afirmou que a questão deve ser tratada diretamente com Tuma, já que a iniciativa partiu do presidente do CD. Além disso, ele reforçou que o Conselho é um órgão sério e destacou que, para além dos processos envolvendo ex-presidentes, existem outras apurações em andamento na Comissão de Ética que ainda não tiveram desfecho.
“Isso tem que perguntar ao presidente Romeu Tuma, não é? Porque essa iniciativa partiu dele e não do Conselho Deliberativo. O Conselho Deliberativo do Corinthians é muito sério. O Conselho Deliberativo está dando, eu repito, uma demonstração da celeridade e da seriedade com que o Conselho leva todos os processos que existem na Comissão de Ética. Entretanto, o que nós temos que colocar aqui é que existem outras pautas também da Comissão de Ética. Existem conselheiros e conselheiras que estão na Comissão de Ética pela tentativa de golpe. Houve uma tentativa de golpe de tomar a cadeira do Osmar na força. Então isso também o Conselho de Ética tem que acelerar, tem que resolver como será efetuado”, finalizou.
Recentemente, a Comissão de Ética e Disciplina deu início aos trabalhos de 2026 ouvindo Augusto Melo sobre a invasão ao Parque São Jorge, ocorrida em maio de 2025. Em depoimento prestado por videoconferência, acompanhado de advogado, o ex-presidente afirmou não ter conhecimento prévio da tentativa de Maria Angela Ocampos de se autodeclarar presidente do Conselho Deliberativo e de anular a votação que confirmou seu impeachment, ocorrido em agosto daquele ano, o que tiraria Osmar Stabile da presidência.
Segundo Augusto, apoiadores o informaram sobre a existência de um documento que permitiria seu retorno ao cargo, tese que foi rechaçada à época por Stabile, que classificou o episódio como uma ameaça ao estado democrático do clube. A Comissão também já ouviu Maria Angela, que declarou ter sido incentivada por pessoas próximas a Augusto, e apura ainda a conduta de outros 11 conselheiros, com novas oitivas já agendadas para as próximas semanas.
Historicamente, Jorge Kalil já atuou em parceria com Andrés Sanchez e Duilio Monteiro Alves. Em 2018, ele ocupou o cargo de diretor adjunto de futebol durante a presidência de Andrés, período em que Duilio era o diretor de futebol do clube.