Joao Messa
Bem legal...
em Bate-Papo da Torcida > Revista Corinthians nº 3, janeiro 1950
Em resposta ao tópico:
Hoje vamos folhear a revista oficial Corinthians – Órgão Oficial do Sport Club Corinthians Paulista nº 3, de janeiro de 1950:
Na capa, o craque Cláudio, que brilhou no ataque corinthiano, de 1945 a 1957:
“Dentro do Corinthians, Cláudio constitui uma bandeira de dedicação e de amor às cores alvinegras. De há muito que se tornou um ídolo da família corintiana. É um elemento disciplinado, eficiente e devotado, possuidor de uma classe indiscutível, considerado, mesmo, um dos melhores ponteiros direitos dos gramados nacionais.
Agora, ao lado do ‘garoto’ Luizinho forma uma ala infernal, fazendo misérias com o seu jogo vistoso, afiligranado e positivo. Por isso, outro não poderia merecer as honras, neste terceiro número da revista de todos os corinthianos, senão o valoroso Cláudio, como elemento de indiscutíveis méritos pessoais e como o grande craque corinthiano.” (p. 13)
A revista comemorou a goleada de 4x1 no Majestoso, pelo Rio-São Paulo, em 28.12.1949, no Pacaembu. Uma vitória de virada, com um gol de Nelsinho seguido de um hat-trick de Baltazar. Lembrando que o resultado surpreendeu a maioria, pois o Corinthians tinha terminado o estadual de 1949 em quinto lugar enquanto o adversário tinha sido o bicampeão. Mesmo assim:
“O fato é que nos primeiros 45 minutos o Corinthians fora inteiramente absoluto. Jogando um futebol clássico, um futebol rápido, um futebol produtivo, fazendo jus, pois, ao placar registrado.
No período complementar, então, vimos um Corinthians arrasador, um Corinthians como nos seus grandes dias, como quando venceu o River Plate, Torino e Botafogo, enfim, um Corinthians irresistível, apresentando uma defesa que mais parecia uma muralha e um ataque que dava a impressão de ser a bomba atômica número 4 , que havia estourado em pleno Pacaembu!
Não era mais aquele Corinthians cheio de complexos. Era um Corinthians valente, impressionante, notável, enchendo os seus milhares de fãs, como tantas vezes o fizera, da mais incontida satisfação e alegria. A noite estava chuvosa, mas para os corações dos corinthianos – como não podia deixar de acontecer – era uma noite linda, festiva, memorável e brilhante.” (Antoninho d’Almeida, p. 2)
Nessa vitória jogou também o médio Touguinha, “O Pai da Bola”:
Em 1949, “um ano que findou e que já foi tarde”, o Timão parece que “quis dar uma chance a seus colegas mais fracos”, enquanto o adversário vinha de “um ano ou mais sem perder um jogo” no Pacaembu (Sangiorgino, p. 15).
“O Corinthians não é capaz de vencer qualquer quadro de várzea!... Mas o Corinthians é capaz de vencer qualquer campeão, seja ele de onde for! Por isso, já lhe deram até a significativa cognominação de demolidor de campeões . (...) Digam o que disserem, afirmem o que quiserem, mas o que não poderão negar é ser o Corinthians o campeão das grandes vitórias. Essa é que é a verdade.” (Antoninho, p. 13)
Daí que essa goleada reacendeu as esperanças dos corinthianos (Francisco Ruiz, p. 4), enquanto os antis esperavam que 1950 seria igual a 1949...
“Mas vai, hein? Estamos em pleno Ano Santo e o Corinthians é o Campeão dos Anos Famosos... Vocês vão ver o que vai acontecer neste santificado 1950. O Corinthians vai bater tanto nesses seus ingratos colegas que muitos deles irão para o céu com casca e tudo!” (Sangiorginjo, p. 15)
De acordo com Nagib Nader, presidente do departamento de futebol profissional:
“Tudo vamos fazer para apresentar, neste ano, um Corinthians gigante, forte e coeso. Se tudo isso for depender de trabalho, de sacrifícios e abnegação dos que estão à testa dos destinos do nosso clube, tudo isso não será poupado. E o Corinthians, podem estar certos os caríssimos corinthianos, terá, neste 1950, o seu ano santo .” (p. 4)
Esse otimismo era justificado: em 1950, o Timão seria campeão do Rio-São Paulo. E um dos responsáveis por esse título seria um gigante de 1,64m de altura: o meia-direita Luizinho, o Pequeno Polegar. Que mereceu uma reportagem de quatro páginas de Ferraz Netto:
“Estamos diante de um craque. Ele ainda tem feições de adolescente. É ainda quase que um garoto. Mas é um garoto vivo que começa a olhar para a vida de perto e começa mais do que nunca a encarar sua carreira de futebolista com importância. Esse craque é Luizinho.” (p. 16)
Filho de seu Gabriel e dona Margarida, Luiz Trochillo nasceu em 07.03.1930 e cresceu na rua Cachoeira, Belenzinho, com seus pais e irmãos. Contou ao repórter que começou a jogar com 14 anos no Juvenil Cachoeira. Depois foi para o Infantil Maria Zélia. Em 1943, entrou no time infantil (sub-16) do Corinthians e conquistou o campeonato da categoria na FPF. Em 1945 e 1946, passou para o juvenil (sub-18) do Timão. Em 1946 e 1947, foi bicampeão brasileiro da categoria juvenil. Em 1948, campeão nacional amador pela seleção paulista. Em 1948 e 1949, bicampeão de aspirantes pelo Corinthians. E estreou no time principal no Majestoso de 28.08.1949, pelo primeiro turno do estadual, no Pacaembu.
“Nasceu assim um craque. Nasceu um jogador, é o que na verdade podemos dizer, pois que um futebolista quando veste pela primeira vez uma camiseta para atuar num time de primeira categoria e o faz com inteiro êxito, sem fracassar, é porque nasceu para mostrar que é mesmo um excelente jogador. Luizinho é assim. Assim é o que o cronista o vê. Dono de um grande futuro em nosso futebol. Um jogador que irá longe e que é no momento o ‘garoto dourado’ da torcida corinthiana. A ‘menina dos olhos’ de todos os corinthianos.” (p. 17)
“Falando ao repórter, Luizinho disse que ele procurará sempre fazer muito pelo seu clube. Nasceu corinthiano e corinthiano ele pretende ser por toda a vida. Quer encontrar no seu atual clube o caminho que o consagrará definitivamente à fama.” (p. 17)
“Seus parentes e amigos estão sempre ao seu lado. São mais uma parte da sua grande legião de fãs. Mas há alguém que ele quer tanto quanto quer como a um irmão. Esse alguém é esse jovem simpático, de fala macia, que atua também no Corinthians. É o José Colombo. O José Colombo é o seu amigo. O Colombo como melhor conhecem todos os fãs do ‘association’. O Colombo jovem e risonho, outra promessa que já se torna realidade. Colombo é o amigo inseparável de Luizinho. Fizeram os dois no alvinegro uma ala infernal. Eram dois garotos endiabrados que muitas alegrias deram aos corinthianos. Esse é o grande amigo de Luizinho.” (p. 17-8)
“Em sua casa, além de contentar-se com a alegria de seus pais, de procurar satisfazê-los com o máximo que lhes possa dar, Luizinho é ainda um fã devotado da música. Gosta dos bons programas de rádio. Tem um rádio à cabeceira de sua cama e os boleros, os sambas ou os tangos é sempre o que ouve.” (p. 17)
Luizinho também gostava de cinema, principalmente filmes de aventura e drama, sendo fã de Humphrey Bogart, James Cagney, Lana Turner, Ann Sheridan, Dorothy Lamour e Claudette Colbert, entre outros. Na literatura, preferia Émile Zola, Alexandre Dumas, Victor Hugo e Humberto de Campos. Quanto às mulheres...
“O meu tipo preferido é nem muito alta nem muito baixa. Nem muito gorda nem muito magra. O tipo médio, ou seja, o tipo bikini.” (p. 19)
Assim?
Em 1949, apesar de Luizinho, o time profissional não foi bem. Mas o quadro amador corinthiano foi campeão da Divisão Extra Amadora da FPF. E repetiria o feito em 1950 e 1951, com o tricampeonato:
“(...) não se poderá negar, esse conjunto corinthiano vem honrando as nossas tradicionais cores. A esses dedicados e valorosos rapazes, (...) apresentamos as nossas felicitações pelo muito que já fizeram para maior glória do futebol amador do nosso idolatrado Campeão do Centenário.” (p. 13)
Enquanto isso, o quadro juvenil foi tricampeão da FPF, com 10 vitórias, 4 empates e apenas 1 derrota (numa partida encerrada irregularmente, 23 minutos antes do fim). Eis a equipe: Carlos (“goleiro de grandes predicados”), Nelson e Duque (“tem demonstrado excelentes qualidades”); Ferrão (“médio que se impõe pela sua classe e pela sua fibra”), Eni (“ótimo centro-médio”) e Diogo; Celio (“eficiente ponta-direita”), Gabriel, Baiano, Japão e Oscar (p. 21). Contando os jogos do campeonato e os amistosos, o time marcou 132 gols e só levou 21, um saldo de 111 gols.
Como todos sabem, o Corinthians tem tradição nas provas pedestres. Seu primeiro título foi justamente numa corrida, em 1912. Em 1949, essa tradição foi reafirmada por João Soares Oitica, tetracampeão da prova General Maurício Cardoso:
Ainda nos esportes amadores, além de quebrar dois recordes da natação (p. 29), o Corinthians foi vice-campeão de polo aquático:
E vice-campeão de basquete:
A revista Corinthians só falava do Timão? Não, ela abria exceção para os times amadores que carregavam a responsabilidade ostentar o glorioso nome:
“O Corinthians pode-se orgulhar de ser o clube no Brasil que possui mais ramificações, isso é, mais homônimos, o que atesta a sua grande popularidade em todo torrão nacional. Quantos Corinthians teremos por esse mundo afora? Dezenas? Centenas? Milhares, talvez? Em cada bairro, em cada município, em cada estado existe sempre um Corinthians com o garboso uniforme preto e branco.” (p. 31)
Para congregar os times xarás, desde 1947, o Mosqueteiro organizava o Torneio Inter-Corinthians:
“Não poderia ser mais feliz o Corinthians Paulista. Por intermédio desse magnífico certame, todos os anos, os grêmios com o nome de Corinthians podem ser confraternizar em lutas leais, em lutas significativas onde nunca faltou e jamais faltará a mais pura disciplina dos concorrentes, pois que todos os participantes lutam pelo mesmo ideal, pelo mesmo princípio. Esse torneio de ano para ano será mais empolgante e mais sensacional.” (Edson Amorim, p. 31)
O campeão de 1947 e 1949 desse torneio foi o Atlético Corinthians FC, de São Caetano do Sul, fundado em 01.06.1933:
E assim, com todos esses esforços...
“O Corinthians, como ninguém poderá ignorar, dentro de uma orientação eficaz e segura, está construindo uma obra sólida, uma obra progressiva e elogiável. Do nosso clube têm partido as maiores iniciativas em prol do maior desenvolvimento dos desportos amadores de nosso Estado. Jamais, seja qual for o esporte amador, deixou de contar, em todas as circunstâncias, com o apoio incondicional do nosso alvinegro. E isso faz com que ele se torne, cada vez mais, respeitado e querido, fazendo com que todos os seus associados, todos os seus simpatizantes, todos os corinthianos, enfim, se sintam profundamente orgulhosos em pertencer a esse gigante, a esse colosso dos desportos brasileiros. (...) Leitores amigos, esse é o Corinthians que vimos ontem, que vemos hoje e que veremos amanhã, sempre trabalhando pela maior grandeza dos desportos do Brasil, fazendo jus, por isso, ao slogan de Clube mais Brasileiro do Brasil !” (Sergio Motta, p. 24)
Antes de terminar...
... Não custa registrar que aparecem neste número dois colaboradores que, com Antoninho, faziam parte da equipe permanente da revista. O chargista Júlio Couto, que resolveu conversar com o busto de Neco...
... E o fotógrafo Constantino Viotti...
As perguntas de Ferraz Netto sobre a intimidade de Luizinho anteciparam as fofocas que fariam a fama da Revista do Esporte nos anos 60. E as fotos inusitadas de Viotti adivinharam uma tendência que marcaria a revista Placar a partir de 1995. Ou seja, Corinthians estava, mais uma vez, à frente de seu tempo.
