Munique Clappis
Há quem diga que os brasileiros pouco se importaram com o que ocorreu em Oruro, na Bolívia, na última quarta-feira (20), quando o jovem Kevin Espada, de 14 anos, boliviano, foi atingido por um sinalizador originalmente lançado pela torcida corinthiana, acertando-lhe no rosto e vindo a falecer logo após.
É um tanto quanto injusto, e também tem seu lado de crueldade, dizer que o brasileiro não se importa com a vítima, um adolescente e que de mal nada fizera. O sofrimento é mútuo, e está longe de ser, apenas um teatro para se livrar de possível peso na consciência.
Engraçado pensar, mas de repente, a torcida corinthiana de apaixonada virou bandida. De fieis seguidores, virou assassina. De sonho se tornou pesadelo. Amigo me perdoe, mas a torcida do Corinthians jamais perdera seu encanto. E não nos tente calar a voz. Em cada um de nós bate um coração que sabe se comunicar por si só. Ele bate e isso é tudo.
Concordo que o cidadão - se me permitem assim chamá-lo - que atirou o sinalizador por distração, medo, descuido ou por qualquer outra explicação, caso ela exista, deve ser punido, julgado e condenado. Mas isso ainda é pouco.
Nós admiradores e seguidores do futebol sabemos que não é de hoje que a Copa Libertadores é (com o perdão da palavra) uma bagunça. A falta de respeito impera nas arquibancadas. Exemplos claros são quando, policiais precisam fazer a escolta do jogador, para que esse possa bater o escanteio. Objetos atirados ao gramado, copos d’água, frutas... Pode parecer absurdo, mas no ano passado, atiraram um capacete no campo. Agora lhe pergunto: quais providências foram tomadas a respeito disso? Recorda-se de alguma? Pois é, nem eu.
SEDE DE MUDANÇA
O que mais entristece, além claro, da morte do menino que tanto ainda tinha pra viver, é a demora por uma atitude. A demora pela mudança. Ao menos para mim, entristece saber, que uma vida teve que se perder para que tomassem alguma atitude, e, se é que vão tomar.
Porque punir o Corinthians não é o suficiente. Punir o Corinthians é necessário? Sim, é necessário. Mas tão necessário quanto punir é dar exemplo. É fazer com que tais circunstâncias não voltem a acontecer. É fazer valer as leis. É dar segurança ao torcedor que paga seus impostos e tem direito à ela.
E pode até ser, pessimismo da minha parte, mas ouso dizer e por em cheque, que se estivéssemos falando de outra competição, alguma qual âmbito não fosse continental; alguma competição com nome de menor relevância e destaque, será que as mesmas circunstâncias teria a mesma repercussão?
Infelizmente não é o primeiro caso de morte por sinalizadores e artefatos caseiros ou profissionais. São muitas as famílias que vêem seus entes queridos irem aos estádios e de lá não mais voltarem...
Ressalto a importância de se pensar em punições, regulamentos e segurança que realmente faça valer e que não seja, um mero pedaço de papel. Estádio é sinônimo de beleza, alegria e de êxtase. É o brilho no olhar e o coração acelerado na hora do gol. É o canto entalado de “É CAMPEÃO” no fim do campeonato.
Futebol já nos proporcionou tanta alegria. Esse mesmo futebol que já parou uma guerra. Não vamos manchar sua história.
Enquanto isso, vou continuar assistindo aos jogos, fora ou dentro dos estádios com a mesma paixão de sempre, Com o mesmo brilho nos olhos e com as mãos na cabeça quando a bola do adversário teimar em passar por cima do Cássio. Continuar torcendo por mudanças e que a bola do Sheik não acerte a trave. Clamo por mudança, mesmo que seu preço seja alto. Que seja, mas que sirva de exemplo, para que outras vidas não se percam e que o futebol possa ser, sempre, espetáculo e não tragédia.
Corinthians nunca teve sangue de barata, nem tão pouco, medo do perigo (e de adversário nenhum). Somos imbatíveis na nossa fé, na nossa percepção, que com humildade e perseverança se alcança o topo do mundo. 16 de dezembro de 2012 tá aí pra comprovar.
Que chegue as mudanças e com elas os tempos de glória.
em Off topic > Brasil e Bolívia de luto (texto sobre a tragédia em Oruro)



