Léo Fiel
Uma imagem vergonhosa que mostra a crueldade da cultura espanhola:
em Bate-Papo da Torcida > A imagem que resume a vitória da Espanha
Em citação ao post:
Texto original de Walter Falceta no Facebook
A IMAGEM MAIS BONITA E INSPIRADORA DA CONQUISTA MUNDIAL DA ESPANHA
Considero que não foi o gol de Ferran Torres, tampouco o drible desconcertante de Yamal no troglodita Paredes.
Vi o encanto maior no gesto do atacante esquerdo Nico Williams, que após a premiação atravessou o gramado e, erguendo-se às arquibancadas, botou sua medalha no pescoço de María Comfort Arthuer, sua mãe.
Depois, o jogador explicou que era ela quem mais merecia aquela honra. 'Eu corro muito rápido, mas não tão rápido quanto minha mãe, que escapou da morte e atravessou o Saara para que eu pudesse estar aqui', declarou.
Para entender o peso dessa poderosa homenagem, é preciso voltar mais de trinta anos. Antes do nascimento de Nico e de seu irmão mais velho, Iñaki Williams, seus pais decidiram deixar Gana para fugir do desemprego, da pobreza e da violência.
Partiram da região de Acra e iniciaram uma jornada de aproximadamente 4 mil quilômetros até o enclave espanhol de Melilla, no norte da África.
Parte desse percurso foi feita na carroceria de caminhões superlotados; outra parte, a pé, sob temperaturas que chegavam a 50 graus no deserto do Saara.
A travessia foi marcada por enorme sofrimento. Parte dos companheiros de viagem do casal morreu no caminho, de sede e de fome. Em determinado momento, foram assaltados por traficantes e ladrões, perdendo todo o dinheiro que levavam.
Mesmo sem recursos, desnutridos, seguiram caminhando descalços pelo deserto. María estava grávida de Iñaki, irmão de Nico, durante a trajetória. Nico resume a jornada heroica da família afirmando que sua mãe 'atravessou o deserto descalça' para oferecer um futuro aos filhos.
Ao chegarem a Melilla, ainda enfrentaram novos obstáculos. Foram detidos pelas autoridades espanholas, interrogados e humilhados por agentes racistas.
Com a ajuda de um advogado e, posteriormente, do padre católico Iñaki Mardones, conseguiram obter proteção, garantir residência e reconstruir a vida no País Basco.
Iñaki nasceu em Bilbao e, obviamente, recebeu esse nome em homenagem ao sacerdote que amparou a família. Nico nasceu anos depois, em Pamplona.
Os dois meninos logo foram desenvolver talentos nas categorias de base do Athletic Club e transformaram a história de sobrevivência dos pais em uma trajetória de sucesso esportivo.
A história dos Williams tornou-se também um símbolo do debate contemporâneo sobre a imigração na Espanha. Governos liderados pelo socialista Pedro Sánchez, do PSOE, têm defendido políticas mais abertas de acolhimento, regularização e integração de refugiados e migrantes.
O PSOE argumenta que a imigração é importante tanto siczões humanitárias quanto para enfrentar o envelhecimento demográfico do país.
A mesma justificativa é utilizada por partidos à esquerda do PSOE, como o Sumar, liderado por Yolanda Díaz, e por dirigentes do Podemos, que há anos defendem políticas amplas de acolhimento a refugiados.
Ao mesmo tempo, em um país ainda assombrado pela herança do franquismo, setores conservadores e de extrema direita criticam essas políticas e exigem controles migratórios mais rígidos. Esse discurso de ódio é propagado, sobretudo, pelos aliados do presidente argentino Javier Milei na Espanha.
Nesse contexto, a família Williams passou a ser frequentemente citada por defensores da integração como um exemplo de como pessoas que chegam ao país em condições extremas podem reconstruir suas vidas e contribuir para a sociedade espanhola.
Creio que o gesto na premiação foi mais que uma homenagem familiar. Constituiu também o reconhecimento de que, antes da glória esportiva, houve uma longa caminhada de sacrifícios, fome e medo. E que foi preciso vencer o Saara antes de conquistar a Copa do Mundo.
Só tivemos isso porque a Espanha, sempre dividida, mas empenhada na superação do preconceito, venceu o torneio da FIFA.
Tivesse ganho a Argentina de Enzo Fernández, Dibu Martinez e Rodrigo De Paul, teríamos mais hinos xenofóbicos, racistas e homofóbicos, com amplo desprezo pelos africanos. Seria repetido, provavelmente, o ritual vergonhoso de celebração da Copa América de 2024.