Ednilson Valia
O Sport Club Corinthians Paulista não perde há oito jogos. Não — corrijo: ele não vence há oito partidas. E há uma diferença obscena entre uma coisa e outra. Perder, às vezes, é humano. Mas não vencer é desumano. É a suspensão da vida. É o sujeito que não morre nem vive — apenas vegeta, como um parente incômodo na sala.
O Corinthians de hoje não entra em campo: comparece. E comparecer é a forma mais humilhante de existir.
Dizem que a dívida bate na casa dos três bilhões. Três bilhões! É um número tão indecente que deveria ser sussurrado, como se fala de adultério ou de doença grave. Não é dívida — é pecado acumulado. É o clube ajoelhado diante de um altar invisível, pagando por culpas que ninguém assume. Porque, no Corinthians, a responsabilidade é sempre uma herança sem testamento.
Os dirigentes? Ah, os dirigentes… São homens que discursam como se estivessem inaugurando um busto de si mesmos. Falam em reconstrução com o entusiasmo de quem já fracassou e aceitou. Têm a solenidade dos inúteis. Administram o caos como garçons que servem um incêndio em bandejas de prata. E o pior: não coram. O dirigente corintiano perdeu a capacidade de corar — e um homem sem vergonha é um perigo público.
Enquanto isso, a comissão técnica aguarda. Espera a demissão como quem espera um táxi na chuva: resignada, imóvel, quase aliviada. Não há urgência, não há desespero. Há cálculos. A rescisão virou projeto de carreira. E eu vos digo: quando o técnico já se imagina demitido, o time já foi enterrado — só falta o padre.
E os jogadores? São burocratas da bola. Cumpridores de expediente. Correm por correr, passam por passar, erram com método. Não há um gesto de fúria, um esgar de vergonha, um grito que rasgue o silêncio. Vestem a camisa como quem veste um pijama institucional. O Corinthians, outrora um escândalo emocional, virou um condomínio de indiferenças.
O torcedor — este sim, o último dos vivos — ainda sofre. E sofre sozinho. Ele grita, ele xinga, ele ama. É o traído que continua esperando fidelidade. No fundo, o corintiano é um crédulo profissional. Acredita mesmo quando o clube já desistiu de si.
E é por isso que a solução não virá de dentro. O Corinthians precisa de um estrangeiro. Alguém que não entenda a nossa condescendência, que não aceite o nosso jeitinho, que não negocie com a apatia. Eu diria o nome sem pudor: Marcelo Bielsa.
Bielsa não treina times — ele os convoca para uma guerra moral. Seus jogadores correm como se estivessem sendo julgados por um tribunal invisível. Não há espaço para displicência, não há tolerância para a preguiça. Com ele, até o erro tem dignidade, porque nasce do excesso, nunca da omissão. E o Corinthians precisa voltar a errar com grandeza, não a acertar com indiferença.
Dirão que é loucura. Sempre é. Mas o Corinthians nasceu da loucura. E talvez só a loucura o salve.
Porque, do jeito que está, não há crise. Há algo pior: há um clube que desaprendeu a sentir. E quando um clube desaprende a sentir, já não há clássico, não há rival, não há futuro. Há apenas um silêncio constrangedor — como o de um morto que insiste em permanecer à mesa.
em Bate-Papo da Torcida > O Corinthians dos Mortos-Vivos (ou: oito jogos sem alma)

