Kleber Camargo
Ótimo tópico. Meu pai cresceu pescando e nadando no Tietê límpido, em Osasco, já após toda nossa capital. Corinthiano DOENTE, me orientou a ser que sou, Corinthiano doente também kkkk
em Bate-Papo da Torcida > O nascimento do Corinthians (1/7) - O Bom Retiro e o futebol na cidade
Em resposta ao tópico:
O texto abaixo é parte de uma compilação intitulada “Do Bom Retiro ao Parque São Jorge - os primeiros vinte anos do Corinthians”, feita por mim há mais de uma década. Tem como base vários livros e textos coletados na internet, em especial o livro mais importante escrito sobre o Sport Club Corinthians Paulista: Coração Corinthiano, de autoria do contista, cronista e jornalista Lourenço Diaféria. Está disponível para download gratuito no Scribd.
No início do século 20, o football era um esporte novo no Brasil, praticado exclusivamente pela elite paulistana. Nas chácaras, ou nos campos do Velódromo Paulista e do Parque Antártica, as equipes eram sempre formadas por ingleses, alemães e completadas com alguns brasileiros, na maioria alunos dos colégios de famílias ricas da cidade. Com o passar dos anos o futebol caiu no gosto da população, inicialmente como espectadora, e depois como praticante em jogos de finais de semana.
Foi na chamada várzea, região próxima das empresas de gás e da ferrovia, que o esporte se popularizou. A área que hoje abriga o Parque Dom Pedro e arredores era formada por grandes terrenos alagáveis na época das chuvas, e era lá, nos períodos secos, que ocorriam as domingueiras com as equipes formadas pelos bairros da cidade. Eram combinados de operários, turmas de ruas, times de negros ou brancos, etc. Foram nos concorridos campeonatos promovidos na várzea que surgiram os primeiros ídolos, as primeiras lendas e estórias do futebol popular. E desse futebol surgiu o termo varzeano, sinônimo de pouca organização, campos precários e atletas rudes. Nessa época surgiram os lendários Alliança (tido como o primeiro), Domitila, Paraíso, Pary, Piemonte, Norte-América, Diamantino, Minerva, Jaceguay, Ruggerone, Belo Horizonte, Botafogo, entre muitos outros.
O Bom Retiro tinha esse nome porque era um retiro bom para quem gostava de sossego e de pescar traíras, mandis, bagres e lambaris nas límpidas águas do rio Tietê. Além disso, tinha um clima gostoso pela sua proximidade com a mata.
O Bom Retiro de 1910 era um bairro cosmopolita de uma cidade ainda provinciana, mas em acelerado crescimento. Abrigava pouco mais de seis mil habitantes, e a estação ferroviária que era a porta de entrada da cidade. Além disso, o bairro tinha o Jardim da Luz, e era sede da Escola Politécnica, do Liceu das Artes, da Escola de Farmácia, e do Quartel da Força Pública. O bairro foi escolhido por muitos imigrantes italianos, espanhóis e portugueses, e também alemães e polacos. E dentre estes muitos artesãos que chegavam à cidade com conhecimentos profissionais especializados. Muitos estrangeiros que moravam no bairro mantinham lojas no térreo e moravam no piso superior. Outros vendiam seus produtos nos arredores das estações da São Paulo Railway e da Estrada de Ferro Sorocabana. Era também um bairro central que dispunha de bonde elétrico e isso facilitava a vida de todos.
Toda noite o povo do Bom Retiro se reunia no areal, que era um grande banco de areia que o Tietê largava, sem vegetação, quando o outono já havia começado. Hoje a rua que descia até o areal ainda existe e é chamada apropriadamente Rua do Areal. Foi lá, em Maio, com o céu extraordinariamente mais iluminado pela passagem do cometa Halley, que começou o sonho de alguns rapazes que queriam formar um club de futebol de verdade. Um team para rivalizar com os times da elite e os times das colônias de imigrantes ingleses e alemães.
