Valerio Pinheiro
É comum ouvirmos críticas ferrenhas (e justas) ao elenco atual do Corinthians por sua postura seletiva em campo. O diagnóstico é quase sempre o mesmo: o time 'escolhe' quando jogar, demonstrando um vigor físico e mental invejável contra os gigantes, mas uma apatia inexplicável diante de adversários teoricamente menos expressivos. No entanto, é preciso coragem para apontar o dedo em outra direção e admitir que a própria torcida é cúmplice e catalisadora desse comportamento.
A contradição começa na arquibancada e nas redes sociais. Ao final de uma atuação pífia contra um adversário da parte de baixo da tabela — como vimos recentemente contra a Chapecoense — a reação imediata para além de cobrar a regularidade, é entoar o mantra: 'Domingo é guerra'.
Ao focar as energias e a exigência de 'sangue no olho' para o clássico ou para o confronto contra o Flamengo, a torcida acaba por emitir um sinal perigoso:
• A Normalização da Mediocridade: Se o jogo de domingo é o que realmente importa, a má performance de quinta-feira torna-se, inconscientemente, perdoável.
• Hierarquia de Pontos: Três pontos contra a Chapecoense valem exatamente o mesmo que três pontos contra o líder. Ao inflamar apenas os 'grandes jogos', a torcida valida a ideia de que a dedicação máxima é um recurso finito, que deve ser poupado para ocasiões especiais.
• Pressão Seletiva: O jogador entende que, se vencer o clássico, o 'pecado' da derrota anterior será esquecido. Isso destrói o senso de urgência necessário para o dia a dia de um campeonato de pontos corridos.
O Corinthians sempre se orgulhou de ser o 'time do povo' e da raça, mas a raça não pode ser um interruptor que só se liga em decisões. Quando a torcida diminui a importância dos jogos 'comuns' para exaltar a 'guerra' do final de semana, ela retira do elenco a obrigação da excelência constante.
Enquanto a mentalidade for de que apenas alguns jogos demandam o 'espírito de Corinthians', continuaremos vendo um time capaz de vencer o impossível em um domingo e de ser apático em uma quinta-feira. A verdadeira guerra de um clube que quer ser campeão é contra a sua própria complacência, em todos os jogos, sem distinção de camisa.
em Bate-Papo da Torcida > A Armadilha do Mantra "Domingo é Guerra"

