O Corinthiano
“A vida imita a arte” é uma frase antiga, mas que insiste em se atualizar no Sport Club Corinthians Paulista. No clube, ela deixou de ser metáfora para se tornar rotina. Menos de 24 horas após a conquista do tetracampeonato da Copa do Brasil, uma decisão já estava selada nos bastidores: a demissão de Fabinho Soldado.
A rapidez do movimento chama atenção. Não apenas pelo timing — imediatamente após um título —, mas pelo contexto. Fabinho saiu em meio a um cenário institucional conturbado, marcado por disputas internas, pressão política e um ambiente que parece cada vez mais distante do profissionalismo que o futebol moderno exige.
Os questionamentos surgem naturalmente. A demissão se deu por erros de gestão? Por falta de preparo para o cargo? Ou pelo incômodo causado por alguém que não se alinhava à desordem historicamente denunciada no Parque São Jorge? As respostas oficiais são vagas. As entrelinhas, porém, dizem muito.
Não se trata de transformar Fabinho Soldado em mártir ou figura intocável. Gestores erram, e ele não está acima de críticas. No entanto, é inegável que, em meio ao furacão institucional vivido pelo Corinthians, sua presença funcionou como uma espécie de escudo. O elenco permaneceu blindado, o foco foi mantido e o resultado veio em campo — algo raro em tempos tão turbulentos.
A grande preocupação, agora, está no futuro imediato. Quem assume o cargo? Um profissional capacitado, com experiência administrativa e independência? Ou mais um nome escolhido por proximidade política, sem histórico de gestão e alinhado a grupos que enxergam o clube como extensão de seus projetos de poder?
O contraste com rivais é inevitável. Enquanto dirigentes adversários falam publicamente sobre planejamento, metas cumpridas e reforços, o Corinthians vê seu presidente envolvido em encontros discretos com um ex-presidente acusado de corrupção passiva, desvio de recursos e outras irregularidades ainda sob investigação. Soma-se a isso o fato de um delegado com acusações públicas ocupar posição relevante no Conselho de Ética do clube — uma ironia que dispensa comentários.
Nesse contexto, torcer se torna um exercício de resistência. O Corinthians segue gigante em história, em torcida e em identidade popular, mas parece refém de um sistema que insiste em se retroalimentar. Um sistema que sobrevive a títulos, ignora alertas e pune quem tenta, ainda que com falhas, impor algum tipo de ordem.
Resta ao torcedor algo além da esperança. Resta a fé — não em milagres esportivos, mas na possibilidade de que, um dia, o clube consiga se libertar de si mesmo. Porque, no Corinthians de hoje, a sensação é clara: o problema raramente está dentro das quatro linhas. E, para não fugir ao título, o sistema continua sendo f*****.







