Luís Figueiredo
Por mais que incautos e imbecis digam, nunca serão somente 22 homens correndo atrás de uma bola. Há diversas sobreposições em uma partida de futebol, e aqueles que possuem olhos para ver enxergam. Há jogos em que se disputam troféus, noutros, a sobrevivência de um time, e, em alguns, o que se disputa é história e herança. Ontem, o que presenciamos na terra sagrada de Itaquera foi um Corinthians obrigado a encarar a própria história de luvas.
Jovens corintianos cresceram sob a presença indubitável daquele gigante no gol: Cássio, o intransponível. Não era mero jogador, ele era uma certeza. Dessas certezas raras que a vida proporciona e o futebol empresta. Nele depositávamos uma confiança sem par. Quando tudo desabava, havia ainda aquela figura plantada na linha, trocando a mão na hora certa, adiando o desastre por milímetros. Quantos jogos não foram resolvidos por uma defesa de pênalti? E, quando ganhamos o mundo, lá estava ele: com as pontas dos dedos empurrando para lá o chute de Torres, como quem diz: “Não agora, não assim, não comigo aqui.”
Só que um dia, esfaqueado por um Judas, o gigante se foi. Em nosso arco, um vazio se fez presente e, infelizmente, a saudade não espalma escanteios. Veio então um menino, Hugo Souza, que havia sido excluído e humilhado. Um menino que fora desacreditado e tido por incompetente. Se Cássio era uma certeza, naquele momento Hugo era dúvida.
Mas o futebol, que parece esporte e na verdade é literatura em tempo real, não aceita incertezas, tal qual um deus dracônico exige os ritos mais sangrentos. Exige que um filho olhe nos olhos do pai e o sacrifique para impor a nova lei. Era preciso destronar o gigante antigo, matar o mito vivo, para ocupar aquele lugar que parecia vitalício. Sendo cruel como é, o futebol fez com que tal rito de passagem ocorresse de modo que não bastasse enfrentar Cássio. Não bastava ser só pai contra filho, velho contra novo. Era preciso que Hugo enfrentasse Cássio onde ele sempre foi maior, imponente e imbatível. O duelo dar-se-ia nas penalidades.
Quando o nosso camisa nove foi bater primeiro, a arquibancada prendeu o ar. Como sempre fez, Cássio escolheu o lado certo, alongou-se e defendeu. Era a imagem totêmica do pai sussurrando no ouvido corintiano: “Eis-me aqui, do outro lado. Ainda sou eu.” Em seguida, de ambos os lados, todas as penalidades foram convertidas. Até a última…
Se Gabigol marcasse, era o fim. Hugo então firula, desloca o peso, dança um passo mínimo entre coragem e blefe. Confunde o atacante. Defende. Ganhamos ali sobrevida. Íamos para as alternadas, e já não existe razão, só nervos.
O Corinthians marca. E o peso recai de novo sobre Hugo. Já não se disputava apenas uma vaga: estava em jogo o direito de seguir adiante sem pedir permissão, sem pedir bênção, sem olhar para trás esperando a mão salvadora que nos criou.
Poesia ou crueldade? Cássio foi derrotado sob os arcos que sempre o fizeram grande. E o que presenciamos em Itaquera foi algo mais difícil do que uma vitória, foi vencer sem raiva, superar com culpa e entender que herança e história são peso, luva que passa de mão em mão. O pai foi morto. Nasceu Hugo, o parricida.
Luís Figueiredo 15/12/2025
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