Velhovamp Coringão
Há um momento na vida de todo corinthiano em que o coração, cansado de apanhar, pede um gesto de rebeldia. E eu falo aqui, quase em sussurro, como quem teme acordar um gigante adormecido: o Corinthians que amamos não é mais nosso. Foi sequestrado. O clube que nasceu no Bom Retiro, iluminado por lampiões e pela ousadia de operários, virou refém de gabinetes, conselhos vitalícios, interesses particulares. Falam sem pudor que “o clube é dos conselheiros”. Pois que fiquem com ele. Fiquem com o estilhaço, com a ruína, com a dívida que já ultrapassa qualquer fronteira da vergonha.
O torcedor, esse sim, continua puro. Continua colossal. O Corinthians ainda tem 35,40 milhões de almas prontas para dar o que for preciso. O corinthiano pagaria a dívida, pagaria duas, pagaria dez, se soubesse que estava salvando o Corinthians. Mas não é isso que acontece. Hoje o torcedor paga para enxertar o bolso de quem envergonha o clube. E quando um povo percebe que está financiando o carrasco do próprio amor, nasce a revolução. Nasce o momento de romper, de virar a mesa, de recuperar a dignidade perdida.
A SAF Fiel pode até ser uma luz distante, um caminho possível. Mas quem controla o clube hoje jamais entregará o poder enquanto houver sangue para sugar. Eles só largariam o Corinthians quando ele já não tivesse mais nada, nem honra, nem camisa, nem vida. E nós, a massa que vibra como se fosse uma só garganta, vamos esperar o caixão descer à terra? Vamos aguardar passivamente o dia em que o Corinthians será apenas uma página triste na história?
Eu proponho outra coisa. Algo simples, brutal, inevitável: a criação de um Corinthians paralelo. Um Corinthians original. Um Corinthians renascido. Um clube sem dívidas, sem amarras, sem conselhos vitalícios, sem donos, sem a maldição do clube social. Um Corinthians que já nasce SAF Fiel, organizado, transparente, popular. Um Corinthians que devolva à torcida aquilo que lhe foi roubado. Deixemos o clube atual para quem diz que ele não é nosso. Que fiquem com o cadáver. Nós ficamos com a alma.
Porque o Corinthians verdadeiro não mora em ata, nem em cadeira vitalícia, nem em sala refrigerada. Ele mora no povo. Ele mora no suor, no sacrifício, no desespero e na alegria. Se eles querem o Corinthians deles, deixemos. Nós construiremos o nosso. E quando o novo Corinthians surgir, livre, limpo e novamente do povo, aí sim o mundo verá que ninguém mata um gigante. O máximo que conseguem é matar o corpo. A alma, essa, renasce — e renasce sempre do lado da torcida.
