Julio Silva
Hoje escrevo não como torcedor, mas como alguém de luto.
Tenho 37 anos. Em toda a minha vida, nunca perdi um ente querido próximo. Nunca precisei enterrar um amigo, um irmão, um pai ou uma mãe. Mas ontem... Ontem eu enterrei algo que me acompanhou desde a infância. Enterrei um amor que moldou minha identidade, minhas emoções, minhas lembranças mais sinceras: meu amor pelo Corinthians.
Não foi uma derrota em campo. Já chorei por elas, e nunca pensei em abandonar. Não foi um título perdido, nem uma seca de anos. Enfrentei todas essas fases com a cabeça erguida, com a camisa suada no corpo, a garganta rouca e o coração pulsando. Foi pior. Foi o que enterraram no clube ontem, com o impeachment do presidente Augusto Melo. Um teatro de poder podre, que apenas repete o ciclo vicioso de corrupção, manipulação e interesses sujos. E tudo isso diante de um clube que um dia foi o reflexo da resistência, da garra, da luta de um povo.
Não é de hoje. São anos vendo o Corinthians ser desmontado por dentro, com promessas ocas, negociatas obscuras e uma vergonha que vai crescendo até o torcedor não conseguir mais se reconhecer naquele escudo. Ontem foi a gota d’água. Foi quando entendi que aquele Corinthians que aprendi a amar já não existe mais — e talvez não exista há tempos. E foi aí que a dor veio. Não a raiva, não o ódio. Mas o luto.
Perder o amor pelo Corinthians é como perder um pai. Como perder um filho. Porque amor de verdade por um time não se escolhe, não se substitui. Não vou 'torcer pra outro', como alguns dizem. Isso não existe. É como pedir pra alguém esquecer quem criou, quem acolheu, quem ensinou a ser forte. Mas esse pai, esse símbolo de resistência, morreu. Mataram ele no conselho, nos bastidores, nas mãos sujas de quem não liga pra torcida, só pra própria conta bancária.
Sinto vergonha. E isso talvez seja o mais doloroso. Porque amar o Corinthians sempre foi motivo de orgulho. Mesmo nos piores momentos, a gente olhava para o lado e via milhões sentindo o mesmo. Mas agora… agora é como se tivessem cuspido no nosso sentimento. Como se tivessem rasgado cada bandeira que levantamos, cada lágrima que choramos, cada grito que demos por esse clube.
Essa carta não é pra dizer adeus, porque não se diz adeus ao que mora no peito. Mas é pra dizer que estou em silêncio. Que meu coração está de luto. E que talvez eu nunca mais torça da mesma forma. Talvez nunca mais torça, ponto.
Aos que sentem o mesmo: vocês não estão sozinhos. E se algum dia o Corinthians se reencontrar com sua essência, que seja a própria torcida que ressuscite esse amor. Até lá, seguimos com esse vazio — como quem perdeu alguém que nunca mais vai voltar.
Com dor,
Um torcedor em luto.
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