Paulo Ferreira
A saída do Jô por indisciplina apresenta uma situação tática que vai servir para escancarar de vez se o Vitor Pereira é de fato um treinador merecedor da moral com a qual chegou, ou se segue a linha da mesmice da safra de treineiros brasileiros bitolados.
Vamos ser diretos aqui: O CORINTHIANS NÃO TEM HOJE COMO ATUAR COM CENTROAVANTE DE REFERÊNCIA/PIVÔ.
Temos diversas opções de atacantes móveis que poderiam atuar em uma dupla de ataque, o que possibilitaria ao Roger Guedes finalmente jogar na sua posição, de segundo atacante, como se destacou no Atlético MG.
Em 2019 o Jorge Jesus pegou um Flamengo que o Abelão não conseguia fazer jogar porque tentava centralizar o Gabigol. O português fez o básico, nada de pontas marcadores de linha lateral ou centroavante improvisado. Dois volantes, dois meias sendo meias, dois atacantes móveis. Simples.
Se formos olhar para o Palmeiras do Abel hoje, que está sem dúvida no melhor momento tático e técnico desde a chegada do treinador, não há um atacante de referência.
Se formos olhar o Atlético MG, o Hulk passa longe de ser um centroavantão fixo no meio da área.
Para atuar com um atacante centralizado, você precisa necessariamente de uma peça com as características do Jô de 2017, sem isso são apenas treinadores querendo forçar um esquema que preferem ao invés de se atentarem ao que tem disponível.
O Carille de 2017 teve o mérito de gerir um grupo que fechou com ele, encaixou em um esquema já conhecido e foi obtendo resultados até quase deixar escapar no 2º turno antes do chacoalhão do Neto, mas em 2018 houve o grande mérito tático de seu trabalho pelo clube.
Na ausência do Jô, vendido ao Japão, o técnico começou insistindo em improvisações para centroavante. Nas redes sociais eu já estava lá martelando junto com outras pessoas algo simples - 'joga sem centroavante, pô!' - e foi aí o pulo do gato.
Com certo delay, o Carille resolveu abrir mão da peça de referência e escalou Jadson e Rodriguinho mais próximos chegando de trás enquanto Romero e Clayson atacavam pelos lados.
Claro que seria muito fácil chegar aqui e dizer que o treinador fez o óbvio, mas evidente que houve mérito dele ali ao fazer funcionar, porque uma coisa é torcedor sugerir, outra é o técnico encaixar em campo e na ocasião o Carille saiu de sua zona de conforto, o time ganhou o Paulista e começou bem o Brasileiro (até o treinador se mandar para o Oriente Médio e transformar sua evolução em retrocesso de lá pra cá).
O que o Corinthians tem mais próximo de um centroavante hoje seria o Júnior Moraes, que não tem característica de jogar de costas pra zaga ou trombando com zagueiros.
Do jeito que atuamos hoje (e há tempos, com todos estagiários que passaram por aqui), nem Romário no auge teria lugar nesse time, já que nunca foi um pivozão segurando zagueiros pra aguardar a chegada de pontas muito abertos ou meias distantes, mas sim um atacante que geralmente funcionava muito bem com uma dupla, como a que fez com o Bebeto.
Tem atacante que é móvel, mas oportunista, reboteiro, artilheiro, como os que atuam fixos.
O Corinthians pode jogar com Guedes e Mantuan na frente, ou com Guedes e Moraes, pode utilizar o Mosquito como um segundo atacante, tudo isso suportado por dois volantes e dois meias, ou dependendo da facilidade do jogo por um volante e três meias.
O que não dá é pra ficar insistindo em um trio de ataque como esquema base, improvisando Roger Guedes, Renato Augusto de costas pra zaga ou querendo que o Moraes com 1,70 jogue da mesma foram que o Jô.
Vitor Pereira até agora não montou um time, não definiu um esquema, está há quase 4 meses gerindo minutagem e escalando por esse critério. Se diante da falta de um atacante de referência ele insistir em tirar jogadores das suas características ao invés de montar um esquema para extrair o melhor deles, aí fica difícil de defender, porque até o Carille vindo da escola Mano Menezes mostrou mente mais aberta em uma situação parecida.
em Bate-Papo da Torcida > UTILIDADE PÚBLICA: não é proibido jogar com 2 atacantes sem pivô
