Adeus, Fubá
Opinião de Rafael Castilho
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Gilmar Fubá atuando na Neo Química Arena, em 2014
Foto: Rodrigo Coca / Agência Corinthians
Fiquei muito triste com o falecimento do Gilmar, o nosso eterno Fubá.
Parece mentira, uma doença que consegue levar aquele atleta que víamos jogar com tamanho vigor físico.
Gilmar era incrivelmente forte.
Lembro quando surgiu no Coringão.
Gilmar tinha a minha idade. Àquele tempo, me chamavam atenção os jogadores que tinham a mesma idade que eu. Sempre sonhei em jogar pelo Corinthians e em algum sonho perdido ainda me imagino que isso tenha ocorrido em alguma realidade paralela. Eu queria ser centroavante do Corinthians.
Realidade física ou realidade paralela, só me faltou um pequeno detalhe para que me tornasse um ídolo do Timão. A minha triste e miserável relação com a bola. Na cabeça tudo funcionava, mas a coordenação nunca foi muito boa.
Quem não tem colírio usa óculos escuro, quem não sabe jogar bola fica escrevendo aqui no site.
Bom, voltando ao Gilmar, acho que toda a Fiel gosta quando vê um moleque do terrão se consagrando. Ainda mais vindo das quebradas de São Paulo. O Gilmar era mais um menino de São Matheus.
Essa é uma coisa muito legal da torcida do Corinthians. A gente gosta e se realiza vendo um de nós ali no campo. A Fiel não sente inveja. Apoia ao máximo, principalmente quando o moleque demonstra vontade e comprometimento. Bola no pé é até bom quando o jogador do terrão demonstra ter, mas vontade é imprescindível.
Isso porque a gente pensa que efetivamente poderia acontecer nessa realidade paralela com cada um de nós.
Ah, se nós tivéssemos essa chance de jogar pelo menos meio tempo com a camisa do Corinthians. Ah, a gente jogaria com tanta raça, com tanto amor! Seria capaz até de morrer do coração, mas não deixaria de lutar um segundo sequer.
No mundo normal, nem sempre é assim. Quando alguém alcança um lugar ao sol, parece que têm centenas ou milhares de pessoas esperando para te ver caindo.
Mas no Coringão, quando a gente vê um moleque simples, vindo de um bairro pobre e realizando o sonho de jogar no Timão a gente torce muito por ele. Faz dê tudo para que dê certo. A paciência é bem menor quando vem um medalhão consagrado, ganhando uma grana alta pra ficar correndo de lado.
Ah, mas o Gilmar era do jeito que a Fiel gostava.
O Fubá era craque? Não era. Mas jogava com apetite, com vontade. Foi iluminado e surgiu em meio a um dos maiores elencos de nossa história. Em termos de qualidade técnica, talvez o melhor time. O Gilmar entrava com a missão dada. Era um soldado.
O interessante do Gilmar era que ele contrastava com aquele time absurdamente técnico. Aquele time de craques precisava de um Gilmar. Precisava de alguém que jogasse mais com o coração. Aquele time que era recheado de estrelas, precisava de alguém simples, com futebol simples. Precisava de um jogador genuinamente corinthiano. Era uma espécie de raiz ou âncora daquela equipe. Era a realidade da Fiel batendo à porta. Era a verdade se impondo. Era a firmeza e a dureza do dia-a-dia se esfregando na cara das ilusões efêmeras.
O segredo daquele vigor do Gilmar?
Logo quando surgiu no Corinthians ele contou pra todo mundo. Era a mamadeira de fubá que sua mãe preparava para que ele crescesse com força.
Não me lembro de Gilmar explorar algum ressentimento sobre o apelido. Ao contrário, sentia orgulho de quem era.
A verdade é que a mamadeira de fubá nunca foi uma especialidade gastronômica. Não era propriamente uma escolha.
A mamadeira de fubá é um gesto de extremo cuidado e carinho das mães espalhadas por esse país que muitas vezes não tem leite pra colocar dentro de casa. Ou, quando tem, precisa complementar de alguma forma a alimentação do filhote para superar a ausência de diversidade de alimentos.
Gilmar é a cara de um Brasil que ninguém quer ver. Gilmar é o Lado B da cidade rica. Gilmar era coringão na veia.
Triste a partida do Gilmar Fubá!
O Corinthians nunca precisou tanto de outros gilmares.
Tem hora que dá desespero ver certo tipo de jogador, muitas vezes com outros recursos que o Gilmar não tinha, mas sem apetite nenhum, absolutamente indiferente diante da maior oportunidade que o universo pode proporcionar, jogar no Sport Club Corinthians Paulista.
Gilmar faz falta como jogador e como torcedor.
Pra usar uma expressão que o Criolo usou em uma de suas canções. O que não falta é jogador “acostumado com sucrilhos no prato”.
Em tempos de futebol Nutella, o Fubá vai fazer muita falta.
Gilmar, vá com Deus. Certamente o Pai superior e a Mãe superiora irão te receber com carinho. Te colocarão no colo, te darão um beijo e um abraço e uma deliciosa mamadeira de fubá pra que você seja confortado, pois acho que na verdade nunca deixamos de ser crianças.
A Fiel pra sempre vai te amar.
Vai Corinthians!
Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Meu Timão.
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