Grupo de conselheiros e associados solicita afastamento cautelar de vice do Corinthians
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Por Matheus Fiuza e Daniel Keppler
Armando Mendonça é investigado pelo MP-SP por quatro crimes
Matheus Pogiolli / Meu Timão
Um grupo de conselheiros e associados do Corinthians protocolou pedido de afastamento cautelar contra Armando Mendonça, vice-presidente do Timão, pelos desdobramentos da investigação do suposto desvio de materiais esportivos da Nike no clube. O dirigente foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) por apropriação indébita qualificada e continuada, tentativa de apropriação indébita qualificada, furto qualificado mediante abuso de confiança e coação no curso do processo, na última quarta-feira.
Os autores alegam que as irregularidades apontadas pelo promotor Cassio Roberto Conserino requerem a abertura de procedimento ético-disciplinar contra Armando. Segundo eles, o vice tem sido "objeto de múltiplas denúncias que revelam um padrão sistemático de conduta incompatível com o exercício de cargo".
Ao todo, o documento conta com 15 assinaturas entre associados e conselheiros. Além das acusações na investigação do Ministério Público, os signatários se apoiam no parecer da Comissão de Justiça (CJ) do Conselho Deliberativo (CD) do clube, que aponta:
- Descontrole administrativo;
- Prejuízo ao patrimônio do Corinthians;
- Interferência direta na apuração;
- Postura intimidatória contra auditores e representantes da Nike.
Segundo a denúncia do MP-SP, Armando Mendonça teria se apropriado de 131 itens de materiais esportivos da Nike entre junho e outubro de 2025. Os produtos incluem 100 camisas, nove blusas, nove calças, seis pares de tênis, quatro shorts, duas malas e uma mochila. O MP também aponta que o dirigente tentou retirar outras 19 camisas especiais da NFL que permaneceram no almoxarifado após o empate por 1 a 1 entre Corinthians e Palmeiras, em duelo disputado em 31 de agosto de 2025.
Além disso, ele teria subtraído oito dessas camisas comemorativas do duelo entre Los Angeles Chargers e Kansas City Chiefs, disputado na Neo Química Arena em setembro, sem a devida formalização da solicitação no sistema interno do clube. De acordo com a denúncia, o dirigente se aproveitou do acesso aos almoxarifados do Parque São Jorge e do CT Dr. Joaquim Grava em razão do cargo que ocupa.
A apuração ainda aponta a prática de coação no curso do processo. Segundo o MP, durante as investigações sobre o desaparecimento dos materiais esportivos, Armando teria adotado uma série de condutas destinadas a intimidar funcionários e colaboradores envolvidos na auditoria interna que identificou as supostas irregularidades. Uma ligação gravada por Marcelo Munhoes, diretor de tecnologia do Corinthians, com duração de quase 40 minutos, virou um dos fundamentos do pedido.
"Não obstante, em razão do cargo mantido pelo Vice-Presidente, ameaças a colaboradores são realizadas de forma nada velada – podendo impactar o Corinthians em futuras ações trabalhistas em razão do evidente assédio moral deste dirigente. Se com o Diretor de TI o Vice-Presidente age desta forma, é melhor não imaginar como ele conversa com pessoas de nível hierárquico inferior ao do Diretor", diz parte do documento para afastamento.
Entre os diálogos classificados como "escárnio" e "vergonha" pelos conselheiros e associados, estão:
- “Você toma cuidado, porque se você acha que vai me atingir, você não vai me atingir.”
- “Você não está colocando em jogo o meu emprego, eu sou eleito, eu fui eleito… ali ninguém me tira, campeão, eu fui eleito.”
- “Se eu pego quatro moletons, você não tem que saber porque eu peguei quatro moletons. Eu peguei porque eu peguei” “Se o presidente (Osmar Stabile) pegou seis moletons e a segurança dele pegou quatro moletons, você não tem que discutir. É o presidente e o vice-presidente”.
O requerimento ainda relembra a abertura de procedimento interno no clube por declarações ofensivas do vice-presidente a torcedores do Corinthians após o título da Copa do Brasil, em dezembro do ano passado. Além disso, destacou falas de Armando em maio de 2025, quando apoiava o afastamento do então presidente Augusto Melo.
Com base nas práticas de governança da Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023) e do Estatuto do Corinthians, o pedido almeja o afastamento cautelar imediato, até o trânsito em julgado de todos os processos. O documento também reforça a preservação dos direitos de defesa do investigado, comunicação oficial à diretoria, CD e departamento jurídico, e remessa de cópias que instruem o MP-SP.
A solicitação estará sob análise de Leonardo Pantaleão, presidente em exercício do Conselho Deliberativo do Corinthians. Marcelo Kahan Mandel, Antonio Roque Citadini, Romero Cardoso de Ávila, José Augusto Cardoso Mendes, Miriam Athiê, Peterson Ruan Aiello do Couto Ramos e Wanderson Contrera Salles são conselheiros que assinaram, enquanto Leandro Olmedila, Henrique Nunes, Nelson Martins Costa, Alexandre Germano, Cyrillo Cavalheiro Neto, Felipe José Mendes da Silva, Cássio Gomes Pereira e Wanda La Selva representam o quadro de sócios.
Diretoria sob pedidos de afastamento
O mesmo grupo já protocolou outras solicitações contra a atual diretoria. Na última quarta-feira, os associados e conselheiros envolvidos ingressaram com pedido de impeachment contra o presidente Osmar Stabile junto ao Conselho Deliberativo (CD), sob alegação de supostas violações estatutárias e legais relacionadas à contratação de empresas de segurança.
O principal ponto do pedido diz respeito à contratação da Mega Assessoria Operacional Ltda, empresa ligada a Fernando José da Silva, conhecido como "Nandão", atual gerente operacional do Corinthians. De acordo com os signatários, a contratação teria ocorrido sem contrato formal e sem a aprovação prévia do Conselho de Orientação (Cori), exigência prevista no Estatuto para determinadas despesas administrativas.
Além da Mega, o documento faz referência à Bear Security Ltda, empresa que estaria responsável pela segurança pessoal de Osmar Stabile. Os conselheiros alegam que a companhia também não possuía regularização perante a Polícia Federal e destacam que ela já teria prestado serviços à família do presidente antes de sua posse no Corinthians.
Ainda em abril deste ano, um grupo de conselheiros já havia protocolado um pedido de impeachment contra o presidente. Este, inclusive, avançou nos órgãos internos do clube, e Osmar Stabile já possui um prazo para sua defesa.
Um dos principais argumentos apresentados no documento está relacionado ao acordo firmado entre o Corinthians e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) para renegociar uma dívida estimada em R$ 1,2 bilhão. De acordo com os autores do pedido, o clube ofereceu o Parque São Jorge como garantia da operação, com o complexo imobiliário avaliado em R$ 602,2 milhões.
