Do Bayern ao Corinthians: chef alemão explica como virou torcedor do Timão
3.9 mil visualizações 42 comentários Reportar erro
Por Felipe Sales

Alex Krach nasceu na Baviera, Alemanha, e se aproximou do Corinthians no Mundial de Clubes de 2012
Arquivo pessoal
O Corinthians é um fenômeno que transcende fronteiras, oceanos e o planeta Terra. Do outro lado do Atlântico reside um alemão que se apaixonou pelo clube do Parque São Jorge desde que Paolo Guerrero marcou o gol do bicampeonato mundial diante do Chelsea, da Inglaterra, no Estádio de Yokohama, no Japão, e sacramentou o triunfo por 1 a 0, no inesquecível 16 de dezembro de 2012.
Em entrevista exclusiva para o Meu Timão, o chef de cozinha alemão Alexander Krach revelou que a paixão pela equipe alvinegra surgiu como uma espécie de vingança, depois que o Chelsea superou o Bayern de Munique, seu time desde criança, na final da Champions League de 2012, e garantiu uma vaga no Mundial.
“Então, desde a infância, eu sou torcedor do FC Bayern. Em 2012, nós perdemos a final da Champions League contra o Chelsea. Então o Chelsea pôde se classificar para o Mundial em Tóquio contra o Corinthians. E o Corinthians se vingou porque venceu o Chelsea, e o gol foi marcado pelo Paolo Guerrero, ex-jogador do Bayern. E então, a partir desse momento, eu comecei a ter interesse e meu coração foi para o Corinthians”, iniciou.
Paolo Guerrero defendeu as cores da equipe principal do Bayern de Munique em 45 oportunidades, somando 12 gols e dez assistências entre 2004 e 2006. Pelo Corinthians, o peruano atuou em 130 jogos, com 54 gols e 12 assistências, conquistando os títulos do Mundial de Clubes de 2012, da Recopa Sul-Americana e do Campeonato Paulista de 2013, além do Brasileirão de 2015.
Alex nasceu na Baviera (Bayern em alemão), que é o maior estado do país e fica localizado na região que tem como capital Munique. O território é conhecido por castelos, paisagens alpinas, cultura tradicional, culinária, cerveja e forte economia. Atualmente, a região tem uma população estimada em 13 milhões de pessoas, segundo dados oficiais.
O primeiro contato do chef com o Timão foi por meio do Mundial de Clubes, mas a conexão com a equipe alvinegra se intensificou quando ele conheceu a esposa, Juliana. Alex ainda apontou a representatividade que toda a família tem pelo clube e como isso influenciou na sua nova paixão.
“Me aproximei (do clube) com a minha visita ao Brasil e a conexão com a família e amigos. Todo mundo é louco pelo Corinthians, então, com o passar dos anos, eu fui ficando cada vez mais próximo. Sabe, isso é tipo… eu não sei, lá pelos meus 30 e poucos anos, eu meio que me apaixonei, um amor novo pelo Timão. Sou chef principal do Schottenhamel, da Oktoberfest, chef principal do Emmeramsmuhle, em Munique, pai da Asuka e Zelda, e Fiel (marido) da Juliana”, contou.
Alex Krach tem uma carreira consolidada no ramo gastronômico na Alemanha. Atualmente, ele gerencia um restaurante chamado Schottenhamel, que é a tenda mais tradicional da Oktoberfest, a maior festa popular e de cerveja do mundo, originada em Munique, em 1810, para celebrar o casamento do Rei Luís I. Realizada anualmente entre setembro e outubro, a festa atrai turistas de todo o mundo por tendas de cerveja, gastronomia típica, trajes tradicionais, música folclórica e parques de diversões.
Coleção de camisas do Corinthians

Alex Krach nasceu na Baviera, Alemanha, e se aproximou do Corinthians no Mundial de Clubes de 2012
Arquivo pessoal
Uma maneira de Alex se aproximar do Corinthians é colecionar camisas do clube. Ao todo, são mais de 20 peças entre atuais, retrôs e da Gaviões da Fiel, principal torcida organizada do Timão. O alemão corinthiano revelou que é fã das camisas da uniformizada, mas, quando se trata do clube, as preferidas são as pretas com listras brancas.
“Eu tenho algumas das camisas especiais do clube que eu posso mostrar. Para mim, minhas duas favoritas são essas (preta com a listra branca na horizontal e a da Gaviões). Não é a camisa oficial, mas este foi o primeiro presente da minha sogra. E eu também amo isso porque é a camisa dos Gaviões. Essa é a minha favorita. No geral, eu gosto das pretas com listras brancas. Para mim. Essa (camisa da Gaviões) não é uma camisa de clube, mas é uma das minhas favoritas porque é do Carnaval deste ano”, explicou.
No início de 2026, o chef de cozinha viajou para o Brasil para aproveitar as férias. Durante a viagem, ele conheceu a quadra da Gaviões da Fiel, durante um dos ensaios da escola de samba para o desfile de carnaval, dias antes de conquistar a segunda colocação na classificação geral, com o enredo “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”, focado na temática indígena e resistência.
Além da visita à quadra no início do ano, Alex esteve na Neo Química Arena em 2019, onde acompanhou uma das partidas do Corinthians em casa. O chef comentou que a atmosfera criada pela torcida o levou de volta aos tempos de infância, quando começou a se apaixonar pelo futebol, e trouxe sensações ainda mais marcantes do que em estádios famosos da Europa.
“Para mim, isso é tipo… eu realmente amo por causa da situação de comunidade ali (na quadra da Gaviões). É como se você chegasse em casa, você encontra muitas pessoas diferentes, é uma vibe boa. E eu gosto que essas pessoas são loucas pelo Corinthians. Ir ao jogo, ou aos jogos, eu tenho que dizer que assisti talvez… é difícil dizer, mas só pelo FC Bayern eu assisti talvez 300 ou 400 jogos ao vivo no estádio, por toda a Europa. E eu também assisti a grandes jogos, por exemplo, clássicos da Alemanha, de Roma, na Itália, em Milão, mas a vibe e a torcida e os torcedores do Corinthians me pegaram mais”, explicou.
“Eu senti como se eu, quando eu era criança e fui pela primeira vez ao estádio, esse foi o sentimento para mim. Mesmo eu já tendo assistido antes a centenas de jogos em diferentes estádios. Eu tenho que dizer que eu estive na maioria dos maiores estádios ao redor do mundo. Eu estive no Maracanã, no San Siro, Estádio Bernabéu, Camp Nou, Allianz Arena, Old Trafford. Mas esse tipo de sentimento, quando eu assisto ao Corinthians, eu não tenho isso, para ser honesto. Ou só tive, se tive, quando eu era criança”, completou.
Naquela partida, o estádio corinthiano contou com um público de 43.449 torcedores, que acompanharam de perto o empate do Timão diante do Ceará por 2 a 2, pelo Brasileirão. Na ocasião, Vagner Love e João Lucas (contra) marcaram para o clube do Parque São Jorge.
Em 2026, Alex tentou voltar ao estádio durante visita ao Brasil, mas encontrou dificuldades para adquirir ingressos por não possuir CPF.
Conexão com a Gaviões da Fiel e representatividade

Alex Strach sonha em cozinhar para os integrantes da Gaviões da Fiel
Arquivo pessoal
Desde a visita ao Brasil, Alex se tornou um grande entusiasta da torcida corinthiana. Questionado pela reportagem quanto ao seu maior sonho envolvendo o clube, ele fez questão de exaltar a força da Gaviões da Fiel e o quanto ela representa a identidade do Timão, revelando que o seu principal desejo é de retribuir essa paixão fazendo uma tradicional feijoada na quadra da torcida.
“Eu acho que Corinthians e Gaviões são a mesma coisa. Primeiro, quero fazer parte da comunidade. Eu realmente gosto disso, da comunidade dos Gaviões, porque há um aspecto social. Eles fazem esportes, apoiam o clube, o carnaval também é um ponto, e eu quero fazer a minha parte lá. E então, como eu quero dar a minha parte, e a minha parte é cozinhar na vida, então eu gosto de cozinhar. É meio que um sonho cozinhar na quadra, e espero ser um membro realmente oficial dos Gaviões. Eu poderia cozinhar feijoada para muitas pessoas. De qualquer forma, minha família é brasileira, então minha comida também é feijão, arroz, feijoada, picanha, esse tipo de coisas...”, contou.
Tradicionalmente, em quase todos os sábados, a uniformizada promove um encontro em sua sede principal no Bom Retiro, em São Paulo, com a feijoada. Para além da escola de samba e da torcida organizada, a Gaviões também promove outras ações sociais e filantrópicas, incluindo campanhas de arrecadação de alimentos, doações de roupas e ações em datas comemorativas. A torcida atua em pautas humanitárias, combate ao racismo e possui um departamento social dedicado a promover atividades comunitárias.
Em relação ao maior ídolo na história do Corinthians para o chef, a lista conta com alguns jogadores que estão na memória e no coração de grande parte da Fiel. Porém, Alex Krach entende que o principal ídolo do clube é a torcida, que o conduz nos bons e maus momentos.
“Há muitos grandes jogadores de quem eu realmente gosto. Por exemplo, os jogadores antigos: Sócrates, Ronaldo Nazário, Paulinho, Marcelinho Carioca. No momento, eu realmente gosto do Hugo Souza, Memphis Depay, mas eu acho que ídolos, sabe, eu tenho 40 anos, e eu acho que jogadores vêm, jogadores vão, mas o Corinthians fica. Então, para mim, o ídolo é o Corinthians e as pessoas que acompanham por toda a vida ou colocam muito esforço, como o presidente da Gaviões, o Ale. Eu acho que isso é um erro (ter ídolos), porque hoje em dia as pessoas vão e vêm. O Neymar jogava pelo Paris, elas (torcedores) seguem o Paris. Você vai para o Santos, elas seguem o Santos. E eu acho que não existem ídolos, porque os ídolos deveriam ser os clubes”, iniciou.
“E as pessoas como presidentes dos clubes, dirigentes dos clubes, jogadores, existem pessoas que eu realmente gosto, mas eu acho que os ídolos sempre deveriam ser os clubes. Porque o clube fica e as pessoas vêm e vão, sabe? E, por causa disso, eu também gosto dos Gaviões, porque eles não se colocam na frente; eles colocam o Corinthians na frente. Eles não querem tirar lucro desse clube. Eles colocam tanto tempo, trabalho nesse tipo de coisa, então isso deveria ser o ídolo, não jogadores específicos. Não há dúvida, existem jogadores de que eu realmente gosto e aprecio o que fizeram, mas eles vêm e vão, mas o Corinthians já permanece há 116 anos”, completou.
A Gaviões da Fiel foi fundada no dia 1º de julho de 1969, por um grupo de torcedores que se conheciam nas arquibancadas do Pacaembu desde meados de 1965/1966, durante a ditadura militar brasileira. Desde a sua origem, nasceu com o objetivo de apoiar o Corinthians e participar ativamente da vida política do clube.
Ao longo dos anos, tornou-se a maior e mais influente torcida organizada do Timão, sendo reconhecida também como uma das principais do Brasil, com destaque pela sua atuação política, apoio incondicional nas arquibancadas e engajamento na fiscalização do clube. Posteriormente, também ganhou protagonismo no carnaval, no qual soma quatro títulos do Grupo Especial de São Paulo (1995, 1999, 2002 e 2003).
Sob o lema “Lealdade, Humildade e Procedimento”, a Gaviões mantém até hoje a proposta de defender o Corinthians dentro e fora de campo.
Como faz para assistir aos jogos do Corinthians na Alemanha?

Alex ostenta uma tatuagem do primeiro escudo do Corinthians em seu antebraço e sempre leva um copo do clube para o trabalho
Arquivo pessoal
Vivendo na Alemanha e com um fuso horário de cinco horas à frente do horário de Brasília, o corinthiano contou que enfrenta dificuldades para acompanhar as partidas do Timão. Ainda assim, sempre encontra alguma alternativa para se manter informado sobre o clube do coração.
“Infelizmente, não é tão fácil, porque existe a diferença de horário. Se o Corinthians vai jogar, por exemplo, às 10 horas ou às 8 horas da noite no Brasil, no horário europeu são 5 horas a mais, então é no meio da noite. Todo jogo que é possível assistir para mim, eu assisto. Eu uso um tipo de busca por streams suspeitos (risos). Se for possível e eu encontrar um jeito, eu tento assistir de qualquer forma. Eu acompanho os resultados ou assisto no YouTube, tipo streamers ou reacts, como uma forma de assistir isso”, comentou.
Para se ter ideia, um jogo da Copa Libertadores no meio da semana, que costuma acontecer às 21h30 no horário de Brasília, é exibido na Alemanha às 4h30 da madrugada. Além disso, existem poucas opções para acompanhar os jogos legalmente. Atualmente, há apenas uma plataforma de streaming alemã que exibe partidas do Brasileirão e outras competições do futebol sul-americano, com uma assinatura que gira em torno de 10 euros por mês, cerca de R$ 60 na cotação atual.
A dificuldade para acompanhar as partidas também se reflete no conhecimento dos alemães sobre o futebol brasileiro. Para Alex, é triste que um clube como o Corinthians, com mais de 30 milhões de torcedores, não tenha tanto reconhecimento internacional, mas ele ainda nutre a esperança de que o Timão passe a marcar presença com mais frequência em seu país.
“É um pouco triste, eu acho, porque, mesmo o Corinthians tendo cerca de 30 milhões de torcedores, não é tão comum, porque, antes de tudo, nós assistimos aos nossos times locais e aos clubes europeus, especialmente clubes alemães ou os grandes clubes europeus como Real Madrid ou Barcelona, Manchester, Liverpool. Mas eu acho que, em termos de redes sociais, está crescendo cada vez mais. Eu espero que cresça mais, mas, agora, eu acho que ainda é um pouco menos. Eu acho que, tipo, quem conhece acaba se apaixonando, porque eles sabem que é um tipo de amor verdadeiro”, finalizou.
Historicamente, o Corinthians enfrentou clubes da Alemanha em sete oportunidades e conta com um retrospecto de cinco vitórias e apenas duas derrotas. Um desses confrontos foi exatamente contra o Bayern de Munique, o outro time de Alex, quando a equipe brasileira levou a melhor ao triunfar por 3 a 2, em duelo amistoso disputado no dia 25 de maio de 1959, no Grünwalder Stadion, com gols de Luizinho, o Pequeno Polegar, e Tite — xará do técnico.