Presidente do Conselho confirma votação aberta para reforma do Estatuto do Corinthians
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Por Matheus Fiuza, Fábio Marinho, Felipe Sales e Daniel Keppler
Na próxima segunda-feira, os conselheiros do Corinthians vão se reunir no Parque São Jorge para aprovar as propostas do anteprojeto da reforma do Estatuto. Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo (CD) do Timão, afirmou que os votos a favor e contrários a determinados pontos serão conhecidos por todos os torcedores.
"Eu falei desde o começo. Até por uma questão legal, a lei exige muita transparência. O estatuto atual prevê algumas coisas que têm que ter votação secreta, mas esse não é o caso (a reforma). Essa votação quem determina é o presidente do Conselho. Ainda que tenha um momento em que as pessoas coloquem a mão na consciência, saibam a importância da reforma, e não haja nenhuma tentativa de sabotar, ou pressão para prejudicar (a votação), a gente pode lançar mão de um dispositivo legal de se votar certos blocos ou certos artigos por aclamação. Mas mesmo nesse voto por aclamação, você registra a individualização do voto. Quando você vota por aclamação, você abre a possibilidade de a pessoa registrar o voto 'não'. Pela lista de presença, você vai saber quem votou não e quem votou sim, porque tudo vai ser registrado", comentou ao Meu Timão.
Embora não seja tratada como uma votação nominal, a lista de presença no Parque São Jorge indicaria quais conselheiros, treinais ou vitalícios, se opõem aos itens do projeto. As discussões para modernizar a constituição alvinegra se iniciaram ainda em novembro, com as audiências públicas, até meados de fevereiro, abertas aos conselheiros, associados e torcedores em geral.
"(Mas) Se tiver que votar nominalmente, a gente vota. Se tiver que votar em bloco, a gente vota. Se, para evitar uma rejeição completa, tiver que votar artigo por artigo, a gente vai fazer. Só não vai ter votação secreta. Todo mundo vai saber quem vota a favor e quem não votou. Eles (conselheiros) participaram de tudo, a primeira reunião para deliberar a reforma foi em novembro do ano passado. Todas as regras foram estabelecidas e houve unanimidade, inclusive no voto do Fiel Torcedor, que todo mundo queria votar sozinho naquela data. Mas se votasse só o Fiel Torcedor e não fizesse as outras amarras no texto, não adiantaria", iniciou.
"Criamos vários mecanismos para proteger e valer a palavra que foi dada e registrada na última ata. Mudar de opinião agora é estranho, tem que ter uma fundamentação muito clara para justificar. No mérito, as pessoas podem votar contra, mas elas têm que explicar para sua consciência. Vocês acompanham as audiências. Quantas pessoas que saíram da audiência falavam uma coisa e aqui dentro falavam outra? As pessoas têm que ter compromisso de saber que, quando elas falam com vocês (jornalistas), estão falando com o torcedor, com o associado. Elas têm que ter responsabilidade com a palavra. Mas quero crer, ter esperança de que a gente vai ter uma votação tranquila. Se não tiver paciência, mas todo mundo vai saber o que aconteceu", complementou Tuma.
Nesta quinta-feira, o Coletivo Voz Corinthiana, atuante ao longo dos debates para o anteprojeto, protocolou um requerimento em defesa da aplicação do voto aberto e nominal na deliberação da reforma estatutária. O grupo argumenta que a Lei Geral do Esporte impõe aos gestores e dirigentes com poder decisório em entidades desportivas alguns deveres, como a prestação de contas e responsabilidade corporativa, onde não se admitem mais decisões tomadas em sigilo.
Fiel Torcedor e pressão pelo 'não'
Entre diversas atualizações, uma das mais significativas é a possibilidade de voto ao Fiel Torcedor (FT) nas eleições do clube. Diante das três propostas, duas delas dão a chance de o sócio-torcedor participar dos pleitos, mas uma delas mantém o cenário atual: sem direitos políticos. Romeu Tuma Júnior, que se mostrou favorável à implementação, explicou que há uma contradição no comportamento de alguns conselheiros em relação ao tema.
"Isso só surgiu na última audiência com os conselheiros. É até contraditório, porque na votação de novembro, todo mundo queria o Fiel (Torcedor). Nós tivemos a audiência pública, no caso do Fiel Torcedor, lá na Arena e até opinei para a comissão (da reforma do Estatuto) manter as duas propostas 'sim'. Uma retroativa e a outra a partir de agora. Muita gente criticou quando apareceu esse não, mas ele apareceu porque, antes de começar a fechar o texto, um grupo de conselheiros quis que fosse colocada uma proposta 'não'. E um outro grupo achou que todas deveriam ter o 'não'. Eu achava isso desnecessário, porque quando for a hora de fazer o roteiro (de votação), que é a minha obrigação pelo regimento interno, obviamente vou falar que quem for contrário pode registrar o nome. Todo mundo vai poder falar 'não' para qualquer proposta, não precisava especificar. Mas eles exigiram, a comissão achou por bem atender e até que ficou bom, porque (agora) você tem três propostas (para o FT) e se uma não atingir a maioria, vão duas para o sócio. É mais garantia até do (voto do) Fiel Torcedor passar por conta desse tiro no pé", afirmou Tuma.
Como mencionado pelo presidente do Conselho, a audiência pública a respeito do Fiel Torcedor gerou consenso em dezembro, durante debate na Neo Química Arena. Tuma relembrou que todos os órgãos tiveram a oportunidade de opinar e deliberar sobre o assunto, inclusive o Conselho de Orientação (Cori) e o Conselho Fiscal (CF). Por isso, ele espera que não ocorra "sabotagem" para adiar mais uma vez a votação.
"A gente tem ouvido alguns movimentos que me soam muito mal e causam estranheza. Nas audiências públicas, todos os órgãos internos participaram. Temos participação do Cori, bastante efetiva. O doutor Miguel (Marques), presidente do Cori, teve uma participação bastante presente, acompanhou os trabalhos da mesa. Membros importantes do Cori tiveram participação muito relevante, puderam opinar, apresentar propostas, ajudaram bastante a comissão a construir o texto final. O Conselho Fiscal foi ouvido dentro da sua atuação, apresentou propostas para que tudo fosse feito da melhor forma, para que os órgãos pudessem respeitar as deliberações do Conselho Fiscal, como determina a lei. Tudo foi feito de forma que todos foram ouvidos".
"A gente ouve 'zum zum zum' que tem grupos tentando minar a reforma, tentando inviabilizar por conta de assuntos que são menores, de interesses pessoais, exatamente o que nos levou à situação de hoje, na situação financeira, com graves problemas de governança. Prefiro acreditar que a sabotagem não vai acontecer, mas a gente está se preparando para qualquer tentativa. Os associados, especialmente, que são aqueles que decidem em última instância na Assembleia Geral, vão fazer um movimento para obrigar os conselheiros, que são os representantes legítimos, a votar. A discussão de mérito é salutar, faz parte do jogo discutir méritos, se é a favor ou contra alguma coisa. Mas tentar derrubar toda uma reforma, que foi trabalhada como nunca antes, e eu acho que nenhum clube (fez). Essa reforma não é feita há 20 anos. As últimas comissões não conseguiram efetivar a reforma. A primeira por conta da pandemia, a segunda que estava pronta para votar, (porque) a gente sabe que teve uma pressão violenta para não acontecer. O ex-presidente do Conselho (Deliberativo) marcou a reunião e alguém foi na casa dele, mandou desmarcar. Foi no grito. Mas no grito ninguém vai impedir essa reforma", completou Tuma.
O mandatário do CD destacou que, ao longo dos últimos meses, houve uma ruptura quanto à situação do Estatuto, modificado pela última vez em 2008. O dirigente afirmou que a pressão de "meia dúzia" não deve ficar acima das principais decisões do clube, que não podem se restringir aos grupos do Parque São Jorge.
"Eu vou ser honesto. Eu vejo nos bastidores que são temas espinhosos para alguns. Filho de conselheiro que não vai poder mais trabalhar no clube, Fiel Torcedor votar, porque ninguém quer democratizar, e tem que democratizar correndo. O Corinthians não pode mais achar que vai decidir as coisas dentro do Parque São Jorge. Estamos em 2026. São 40 milhões de torcedores que sustentam isso, direta ou indiretamente. A gente tem que abrir mesmo (o clube). Não dá mais para duas mil pessoas decidirem quem vai ser presidente do Corinthians e vai cuidar de 40 milhões de pessoas. O fato de funcionário não sofrer mais pressão para votar. Tudo isso incomoda uma meia dúzia que não consegue mais manipular o clube. Isso incomoda muita gente. Os caras não querem mudar porque, na hora que mudar, eles vão perder poder. É isso que está acontecendo. Essa é a verdade", finalizou.
Após a aprovação no Conselho Deliberativo, o projeto seguirá para a última etapa, com a Assembleia Geral dos Associados. A expectativa é de que os sócios se reúnam em abril para alterar o atual regimento corinthiano.