Corinthians admite risco de perder mais de R$ 700 milhões em processos judiciais em plano do RCE
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Por Felipe Sales e Daniel Keppler

Corinthians admite risco de perder mais de R$ 700 milhões em processos judiciais em plano do RCE
Rodrigo Vessoni / Meu Timão
Na última terça-feira, a Justiça de São Paulo seguiu o parecer do Ministério Público e homologou a proposta apresentada pelo Corinthians no Regime Centralizado de Execuções (RCE), mecanismo criado para viabilizar o pagamento de cerca de R$ 190 milhões em dívidas. A decisão foi proferida pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais, responsável pela tramitação do caso.
Como parte das exigências da Justiça para analisar a viabilidade do cumprimento do RCE, o clube do Parque São Jorge informou a existência de mais R$ 510 milhões em ações classificadas como de “perda provável”, que ainda tramitam nos tribunais e podem ser executadas a qualquer momento, e totalizam mais de R$ 700 milhões. É importante ressaltar que se trata de uma estimativa, podendo ou não se concretizar. A informação foi divulgada inicialmente pela ESPN e confirmada pelo Meu Timão.
Em nota enviada à reportagem, o Corinthians afirmou que os valores citados no documento são apenas estimativas de contingências exigidas por lei, e não dívidas imediatas, pois se referem a processos ainda em andamento, classificados como perdas prováveis, possíveis ou remotas. O clube também ressaltou que o RCE comprova a viabilidade financeira, organiza o pagamento do passivo efetivo e garante transparência, sem que esses números representem um montante a ser quitado de forma imediata.
No plano aprovado, o Corinthians concentrou todas as execuções em um único juízo, sob supervisão judicial e de um administrador judicial — a empresa Laspro, indicada pela Justiça —, com o objetivo de organizar os pagamentos, evitar bloqueios pulverizados de receitas e garantir previsibilidade financeira sem paralisar as atividades do clube. Em uma planilha apresentada ao Judiciário, o Corinthians divide os processos em três categorias: perda remota, perda possível e perda provável.
No documento, o clube do Parque São Jorge reconhece formalmente a dimensão do seu endividamento — etapa considerada crucial para a aceitação do pedido, já que em uma das negativas anteriores o magistrado havia exigido a apresentação detalhada da composição da dívida. Segundo o próprio texto, o passivo total girava em torno de R$ 2,4 bilhões em dezembro de 2025, distribuído entre diferentes naturezas de obrigações.
Em outro trecho, o Corinthians detalha esse montante em dívidas tributárias de R$ 817 milhões, dívidas desportivas de R$ 238 milhões, operações financeiras de R$ 226 milhões, débitos trabalhistas e FGTS de R$ 93 milhões, dívidas cíveis de aproximadamente R$ 360 milhões e, por fim, o financiamento da Neo Química Arena junto à Caixa Econômica Federal, que somava cerca de R$ 677 milhões naquele período.
Atualmente, o Corinthians tem cerca de R$ 190 milhões efetivamente incluídos no RCE, valor que corresponde às dívidas já executadas e aceitas pelo juízo e que poderão ser pagas de forma parcelada. Essa quantia começará a ser paga em março, utilizando 4% da receita do clube em fevereiro. Os demais montantes, inclusive os mais de R$ 510 milhões classificados como de perda provável, ainda não fazem parte do regime e só serão incorporados caso os processos sejam convertidos em execuções, os credores solicitem a habilitação e a Justiça autorize a inclusão desses valores.
Perdas prováveis e dívidas de pouco conhecimento público
O documento lista processos judiciais em andamento envolvendo 156 credores, que somam mais de R$ 700 milhões entre ações classificadas como de perda provável, possível ou remota. Há cobranças de fornecedores, execuções contratuais, direitos de imagem, prestação de serviços e até uma ação do Ministério Público que pode gerar um desembolso de quase R$ 40 milhões.
Entre as dívidas enquadradas como de perda provável estão valores devidos a empresários e ex-jogadores. Apenas com agentes de atletas, o montante gira em torno de R$ 300 milhões. Débitos com órgãos públicos também representam uma cifra expressiva, superior a R$ 300 milhões, distribuídos em diferentes processos.
O levantamento inclui ainda passivos de pouco conhecimento público. Um deles é uma dívida de cerca de R$ 10 milhões com a família de Tim Maia e a produtora Warner/Chappell. Há também uma cobrança de R$ 16 milhões por descumprimento de compensação ambiental relacionada ao terreno do CT Dr. Joaquim Grava no Parque Ecológico do Tietê.
Outra ação envolve um pedido de indenização de aproximadamente R$ 1,2 milhão por um acidente de trânsito com uma Kombi do clube, utilizada para transportar alunos de uma escolinha do Corinthians, que acabou gerando responsabilidade judicial ao clube. Além disso, existem processos relacionados a supostos erros administrativos na preferência de ingressos para membros do Fiel Torcedor.
Uma das maiores cobranças fora do futebol vem de uma ação da Prefeitura de São Paulo ligada a uma antiga reintegração de posse. O processo trata da liquidação de uma sentença arbitral envolvendo imóvel e gerou um crédito estimado em mais de R$ 22 milhões.
Outro caso peculiar é uma execução da Fazenda do Estado de São Paulo relacionada a um Termo de Compromisso de Recuperação Ambiental (TCRA), firmado em 2001, que previa o plantio de mais de 76 mil mudas de árvores. Como o projeto não foi cumprido, o Estado executou o clube, com multas e bloqueios judiciais que já chegaram a valores milionários.
O documento também cita uma ação de indenização movida por uma torcedora que comprou ingresso para um jogo suspenso durante a pandemia de Covid-19 e alegou ter sido constrangida ao tentar reaver o valor na Arena. O caso já está em fase de cumprimento de sentença.
Há ainda uma cobrança decorrente do uso de imagem de uma atleta da natação, em que o Corinthians foi condenado por descumprimento de acordo, além de uma execução movida por uma empresa de coleta de lixo, que cobra valores por serviços prestados e por equipamentos que não teriam sido devolvidos pelo clube.
Na prática, o que o Timão admite no RCE é um quadro de endividamento estrutural severo, com forte peso do financiamento da Neo Química Arena e um volume elevado de passivos judiciais, cenário que ajuda a explicar por que a diretoria classifica a situação financeira como crítica e dependente de uma reestruturação profunda.
Confira a nota do Corinthians na íntegra
“O Sport Club Corinthians esclarece que os valores mencionados no documento (conforme exige o art. 16 da Lei nº 14.193/2021) versam sobre as estimativas auditadas de contingências.
Pela Lei do RCE, o Clube é obrigado a listar processos (tanto em fase de conhecimento como em fase de execução), classificando-os como perdas "prováveis", "possíveis" ou "remotas". Portanto, esses números não representam dívidas líquidas, certas e exigíveis, mas sim prognósticos processuais que podem, ou não, vir a se confirmar no futuro.
A aprovação do RCE é, por si só, a prova da viabilidade financeira do Clube. O plano foi estruturado justamente para dar ordem, cronograma e segurança jurídica ao pagamento do passivo real, garantindo que o fluxo de caixa do Corinthians comporte as obrigações pactuadas sem comprometer a operação da instituição.
O fato de tais números serem auditados internamente reflete o compromisso do Corinthians com a transparência e com o rito legal do RCE. Trata-se de um exercício de governança, e não de um passivo imediato a ser quitado de forma integral no curto prazo”, escreveu o clube.