x

Ex-diretor do Corinthians justifica adiamento da votação do Estatuto e opina sobre pautas sensíveis

510 visualizações 13 comentários Reportar erro

Por Rafael Marcon, Flavio Ortega e Marco Bello

Vinícius Cascone, ex-diretor jurídico do Corinthians, foi um dos conselheiros trienais que confeccionaram o requerimento que pedia a anulação da votação de reforma estatutária na última segunda-feira — em unanimidade, o Conselho aprovou a medida e montou um novo calendário para o pleito. Em entrevista ao Tabelando, no YouTube do Meu Timão, Cascone disse que era necessário esse retardamento da votação, uma vez que os votantes não teriam tempo hábil para discutir as propostas com precisão.

“Entendo que, do jeito que a reforma estatutária estava sendo proposta, sem ter nenhum tipo de debate, o resultado da votação não seria positivo para o Corinthians. Respeito a Comissão (de Reforma), evidentemente, respeito o presidente do Conselho Deliberativo (Romeu Tuma), mas tenho divergências em relação à forma de encaminhar essa questão. Fiz um requerimento por escrito para o presidente do Conselho Deliberativo, solicitando a suspensão da votação naquele dia. Era praticamente inviável você discutir todos aqueles artigos do Estatuto, mais de 90 páginas de temas fundamentais para o clube. Não posso acreditar que a gente conseguiria debater isso em duas, três horas, tamanha a importância", apontou o conselheiro.

O requerimento citado, além de Cascone, teve como principais articuladores Jorge Kalil, Paulo Pedro e Felipe Ezabella. Esses dois últimos são membros do Conselho de Orientação (Cori), que já havia notificado o Conselho Deliberativo (CD) sobre a recomendação de adiar a data marcada para a votação — o Cori, inclusive, teceu críticas à condução de Romeu Tuma Jr., chefe do CD, no processo e pontuou que esteve alheio às sugestões aderidas pela Comissão de Reforma do CD. Ainda de acordo com a entrevista de Cascone, o requerimento nada mais era do que uma suplicação pelo amplo debate das propostas.

"O requerimento dizia sobre a necessidade de amplo debate, da ampla participação dos conselheiros associados e torcedores para encontrar soluções e modelos para o Corinthians. 'Requer que seja submetido ao plenário deste conselho o seguinte: aprovação de um calendário de agências públicas com presença de associados, conselheiros, torcedores e especialistas para dar amplitude ao debate da reforma estatutária, inclusive para a apresentação de modelos estruturais'", apontou o conselheiro.

"Então, assim, ninguém pediu cancelamento de nada. Ao contrário, (pedimos) para dar amplitude ao debate. Ontem não houve debate. Seria impossível discutir, por exemplo, se a gente quer um modelo de SAF ou não quer. Se a gente quer dar autonomia ao departamento de futebol ou não quer. Se a gente quer discutir o voto do fiel torcedor ou não. Quem vai poder votar? Quais são as condições? O que eles teriam que pagar? Se fosse tudo votado naquela oportunidade, com todo respeito, a torcida corinthiana estaria frustrada hoje aqui”, afirmou.

Em tese, os conselheiros iriam aprovar (ou reprovar) as sugestões do anteprojeto fabricado pela Comissão de Reforma. As propostas aprovadas formariam o documento oficial da reforma estatutária, que seria votada por sócios em Assembleia Geral no dia 20 de dezembro. Nada disso aconteceu, porém.

Com o requerimento feito e apoiado pela maioria, a votação foi adiada. Em reunião, o Conselho do Corinthians definiu que haverá dez audiências públicas entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, a fim de que todas as propostas elaboradas sejam debatidas. Sendo assim, a previsão é que um novo Estatuto seja instaurado em março do ano que vem e passe a valer a partir de 2027, ou seja, a partir do novo triênio.

Por que não houve reuniões para discussão das pautas anteriormente ao dia da votação?

Foi decidido o adiamento da votação somente no dia em que ela seria concretizada

Foi decidido o adiamento da votação somente no dia em que ela seria concretizada

Maria Beatriz de Teves / Meu Timão

O principal questionamento sobre o adiamento da votação se baseia em uma pergunta: por que deixar para o exato dia da votação a evidência de ampliar o debate? Os conselheiros não poderiam ter feito essa requisição anteriormente?

O CD, por meio de Romeu Tuma Jr., tornou público cada sugestão acolhida por esta comissão e seus autores desde 2024 — veja aqui. Mesmo assim, Cascone apontou, em sua versão, que o processo da Comissão de Reforma do CD foi alheio a outros setores do clube. O conselheiro foi até secretário geral e diretor jurídico no governo de Augusto Melo e, segundo ele, soube da iminente reforma somente em junho, com a ocupação das organizadas no Parque São Jorge.

“Foi nomeada uma Comissão de Reforma Estatutária pelo presidente do Conselho em 2024. Não tive nenhuma informação do andamento dessa comissão. Tanto publicamente como internamente no clube, eu sempre defendi que a gente tivesse um processo de redemocratização, de ampla participação. (Mas), não sabia do andamento dos trabalhos, aliás, poucos conselheiros sabiam do andamento dos trabalhos. Quando, há dois meses, a gente ficou sabendo. Houve uma manifestação das torcidas organizadas ocupando o Parque São Jorge e foi (só) aí que apareceu o encaminhamento da comissão de estatutários, que estaria finalizando os trabalhos", evidenciou Cascone.

"Debati alguns temas com alguns coletivos antes da apresentação desse anteprojeto, com o coletivo Voz Corinthiana. Conversei com o pessoal da Safiel também, sobre o modelo. Então, eu venho tentando trazer esse debate. Fui na própria organizada, na Gaviões, discutir um modelo associativo diferente. Não dava (para votar agora). Falo com muita tranquilidade, se a gente está ansioso e quer tentar resolver as coisas, não dá para a gente acreditar que ontem a gente conseguiria votar e ter o melhor resultado do Corinthians", completou.

Cascone ainda revelou que a sua ideia é votar em propostas que ampliam a participação da torcida na política do clube. Até por isso, o requerimento (posteriormente aderido) solicitava a confecção de audiências públicas, onde não somente conselheiros poderão debater sobre as sugestões do anteprojeto. Para ele, os conselheiros, por natureza de suas obrigações, muitas vezes não entendem o próprio regimento do Estatuto. Exemplificando essa ideia de ampliar o debate, o conselheiro falou sobre a discussão de votos ao Fiel Torcedor.

"Nós vamos discutir hoje, voto do Fiel Torcedor, por exemplo. Chama todo mundo para discutir. Torna pública a convocação. Convoque as pessoas, chame especialistas, chame as torcedoras organizadas, chame os torcedores, chame todos que querem participar desse debate. Acho que tem uma diferença de fazer conversa em sala fechada e fazer conversa pública", disse.

"Para mim, eu penso o seguinte: diante de toda a situação política que o Corinthians encontra, diante de toda a comoção que existe da sua torcida, diante do nosso patrimônio que é a torcida que financia o futebol do Corinthians. Se a gente não criar mecanismos ousados de participação da torcida corintiana, nós vamos continuar com a crise de legitimidade. Nós vamos continuar com o status de que, olha, o pessoal do Parque São Jorge estuda sozinho e não quer perder o poder. Nós precisamos democratizar", afirmou.

No anteprojeto, uma das propostas anunciava o voto ao Fiel do Torcedor, mas com condições alarmantes: o sócio do futebol teria que pagar uma taxa de 50% em relação à mensalidade dos sócios do clube social e só poderia votar a partir de 2030. Outro ponto que chamava a atenção era a possibilidade de uma abertura de SAF, mas apenas até 49% do capital social do clube, onde o regime estatutário seria majoritário de qualquer modo. Cascone entende que esse tipo de pauta sensível precisa de tempo para ter definições.

"Não se trata de uma fuga, pelo contrário. Vamos tornar as coisas claras para justamente não ter outra frustração. No meu entendimento, se votasse o Estatuto ontem do jeito que estava, hoje a gente estaria chorando aqui", concluiu.

É preciso realmente uma mudança total do modelo? A Sociedade Anônima de Futebol (SAF) é um caminho?

A SAFiel foi oficializada em um evento no Pacaembu e é um modelo possível para o Corinthians seguir

A SAFiel foi oficializada em um evento no Pacaembu e é um modelo possível para o Corinthians seguir

Victor Gomes / Meu Timão

Vinícius Cascone não tem uma posição definida quanto ao Corinthians se tornar uma SAF. No entanto, ele entende que modelos diferentes devem ser aderidos no amplo debate da reforma. A ideia do conselheiro é pegar o que for bom de cada modelo, partindo do princípio de que todos podem somar com sugestões.

Dessa forma, o conselheiro não garantiu apoio a uma eventual SAF, mas apontou a SAFiel como um bom caminho de princípio para o Corinthians discutir o modelo.

“Não tenho posição concreta em relação a ser SAF ou não ser SAF. Estou estudando. Acho que o projeto da Safiel trouxe grandes avanços para a discussão do modelo. Tem aspectos de governança fundamentais ali que a gente tem que trazer para o Corinthians. O problema é que a discussão não estava nem sendo feita internamente. O que eu estou defendendo é o direito da Safiel apresentar o seu modelo, apresentar a sua proposta, porque até então a gente não teve um espaço de debate interno", apontou.

Lançado oficialmente em outubro deste ano, a SAFiel é uma ideia de torcedores do Corinthians onde a sociedade introduzida teria a torcida como "dona" do clube. O sistema proposto funciona a partir da venda de cotas, com torcedores-investidores injetando capital no futebol. Cascone entende que essas propostas "de fora" do Parque devem ser bem-vindas nas reuniões públicas. Para uma introdução de novos modelos de governança, o conselheiro defende a ruptura da sede social e do departamento de futebol.

"Só que isso também não quer dizer que eu concordo que seja a SAF. Não é essa a questão. Nós vamos trazer o debate para achar o melhor modelo do clube. O fato é que a gente precisa abrir os muros do Parque São Jorge. Abrir os muros não é para a gente criar um novo modelo de associado que frequente o clube associativo, que frequente a piscina, a peteca, o basquete, mas sim uma nova categoria que pensa exclusivamente no futebol", afirmou.

E sobre o Fiel Torcedor ter direito ao voto? O que o Corinthians terá de fazer para que a medida seja validada?

Faixa da torcida do Corinthians exibida na entrada do Parque São Jorge durante a reunião entre...

Faixa da torcida do Corinthians exibida na entrada do Parque São Jorge

Gustavo Lima / Meu Timão

Cascone, mais uma vez, entende que para o Fiel Torcedor ter direito ao voto é necessária uma ruptura da sede social com o departamento do futebol. O conselheiro defende a ampla participação política da torcida e acredita que o corinthiano é suficientemente engajado para aderir a novas modalidades no Fiel Torcedor que compreendem o direito do voto à presidência. No entanto, ele também aponta a necessidade de mudanças, como a redução de cinco para três anos no período de adimplência proposto para que o torcedor seja validado com direitos políticos.

“O modelo que a gente vai ter… o Departamento de Futebol vai ficar vinculado ao Parque São Jorge? Se ficar vinculado como está hoje, se for esse modelo aqui, que pra mim não é o modelo que eu comporto, é um modelo em que eu gostaria que a gente tivesse autonomia no Departamento de Futebol. Então eu defendo uma grande amplitude, esse é o meu sonho, de abrir aí, ter 50, 100 mil pessoas que aderissem a um programa de associação do futebol que pudessem eleger, votar e ser votado no conselho de administração do clube", afirmou Cascone.

O ex-diretor jurídico acredita que a entrada da torcida na política faria com que o controle de governança pudesse ser mais rígido. Atualmente, em sua visão, falta, além de um sistema mais punitivo para maus gestores, também uma maior transparência nas ações de poder da diretoria do Corinthians. Essa cisão entre Parque São Jorge e futebol poderia condicionar a participação massiva da população corinthiana na política e abrir novas melhorias de interesse.

"É importante deixar claro, eu não defendo remuneração para dirigentes, tá? Não concordo com esse modelo, inicialmente. Acho que não tem essa necessidade. Mas a gente teria uma estrutura profissionalizada: executivo de futebol, executivo de marketing, executivo de comunicações, executivo de jurídicas, executivo de finanças e assim por diante, que sejam profissionais. E que os estatutários aqui, não falando só do Departamento do Parque São Jorge, cobrariam o trabalho deles, evidentemente, tomariam as decisões conjuntamente com eles", disse Cascone.

"A gente precisa ter esse controle aqui e mecanismos de governança radicais, de transparência, de publicidade. Você vê as coisas no aplicativo em tempo real, os gastos do clube, onde você está gastando. Claro que algumas informações são sensíveis, que não podem ser publicadas, como o valor de salário de jogador etc. Mas outras, você pode falar: meu orçamento está aqui. Fazer um relatório mensal das atividades. Ter uma auditoria externa, contratada permanentemente", concluiu.

Há chance de os debates não terminarem em dez reuniões e acabarem postergados para outras, atrasando o processo?

Cascone não esconde que há chances de as sessões públicas serem postergadas e o calendário predisposto para a reforma ser atrasado. Mas, segundo ele, o papel dos conselheiros será cobrar o cumprimento desse cronograma.

O risco existe sempre, não vamos ser hipócritas aqui também. O fato é que foi aprovado um calendário e, em tese, o Conselho precisa seguir esse calendário. Se não se seguir, aí precisa explicar o que aconteceu. Vou defender que as audiências públicas sejam transmitidas, não vejo problema em transmitir audiência pública. Quanto mais pessoas acompanharem o debate, melhor para a gente aperfeiçoar. Percebi que há um entendimento de querer cumprir esse calendário. Então, acho que cabe a todos os corinthianos e associados também cobrarem que esse calendário seja cumprido”, finalizou.

Veja mais em: Diretoria do Corinthians, Parque São Jorge e Estatuto do Corinthians.

Veja Mais:

  • Corinthians inicia semana sob expectativa de proposta milionária por André Luiz

    Corinthians inicia semana sob expectativa de proposta milionária por André Luiz

    ver detalhes
  • Corinthians sofre novo transfer ban após atraso em pagamento à CNRD

    Corinthians sofre novo transfer ban após atraso em pagamento à CNRD

    ver detalhes
  • Volante do Corinthians passa por exames após susto e não tem fratura constatada

    Volante do Corinthians passa por exames após susto e não tem fratura constatada

    ver detalhes
  • Com grande atuação de Luizinho, Corinthians goleia a Ponte Preta a assume a liderança do Paulista Sub-20

    Corinthians goleia a Ponte Preta e assume a liderança do grupo no Paulista Sub-20

    ver detalhes
  • O Corinthians encerrou mais uma semana de treinos no CT

    Corinthians faz treino coletivo visando retorno do Brasileirão

    ver detalhes
  • Jhonson marcou o gol da vitória das Brabas sobre a Ferroviária

    Corinthians vence a Ferroviária em casa e encosta na liderança do Paulistão Feminino

    ver detalhes

Últimas notícias do Corinthians

Comente a notícia: