Presidente do CD do Corinthians revela que problemas com materiais da Nike seguem acontecendo
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Por Felipe Sales, Flavio Ortega e Marco Bello

Romeu Tuma Júnior durante entrevista no Parque São Jorge
Meu Timão
No início de maio de 2025, ainda sob a gestão de Augusto Melo, veio à tona o recebimento de quase R$ 5 milhões em materiais fornecidos pela Nike no CT Dr. Joaquim Grava sem o devido lançamento das notas fiscais no sistema oficial do clube. A prática pode facilitar o uso indevido de camisas e outros materiais ou até mesmo supostos desvios desses itens.
Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo (CD) do Corinthians, informou que algo semelhante continua acontecendo e que enviou ofícios para as Comissões de Marketing e Justiça acompanharem o caso.
“Com relação ao material (esportivo), nós tivemos um problema grave na outra gestão. Eu já soube que está tendo algo parecido. Então, sim, já mandei ofício também para a Comissão de Marketing e de Justiça para acompanhar. Eu sei que está sendo feito um trabalho pela presidência e a gente vai cobrar o relatório disso para apurar também. O problema continua e é grave. Estamos apurando”, contou Tuma em entrevista ao programa Tabelando, do Meu Timão.
Vale lembrar que o CD reprovou as contas da gestão de Augusto Melo referentes ao ano de 2024. Entre os motivos que levaram à decisão estão justamente os valores mencionados. De acordo com informações do UOL Esporte, entre abril e dezembro do ano passado chegaram ao CT 9.062 produtos esportivos da Nike, somando R$ 4.941.075,13. No entanto, nenhuma nota fiscal foi cadastrada no Protheus, sistema de gestão utilizado pelo Corinthians, o que dificultaria o rastreamento e a contabilização correta do material.
Marcelo Munhoes, chefe de TI do clube, explicou à reportagem do UOL na época que, sem o lançamento correto das notas no sistema, é impossível garantir a rastreabilidade das peças recebidas. Com isso, camisas e outros materiais podem ser utilizados de forma indevida ou até mesmo desviados.
O Corinthians afirmou ao veículo que mantém registros manuais das notas em razão de uma reestruturação no sistema de gestão. Ainda segundo o clube, todas as comprovações e documentos estão sendo integrados gradativamente ao sistema. Apesar disso, a reportagem teve acesso a documentos que mostram que, até o início de maio, nenhuma nota da Nike havia sido inserida no sistema do CNPJ vinculado ao CT.
Mudanças nas Comissões afetam as investigações em andamento?
Na última quarta-feira, Romeu Tuma Júnior, presidente do CD, divulgou um comunicado aos conselheiros atribuindo o novo organograma de cada comissão do clube. Tuma explicou que as mudanças nos quadros de cada grupo foram necessárias porque o presidente Osmar Stabile chamou antigos membros para fazer parte de sua diretoria.
Apesar das mudanças, Romeu Tuma Júnior garantiu que, mesmo com a reestruturação, as investigações em curso, como no caso da Nike, assim como as apurações sobre supostas notas frias e o uso indevido do cartão corporativo por ex-presidentes Andrés Sanchez, Duilio Monteiro Alves e Augusto Melo, seguem acontecendo e afirmou que não há o menor risco de os casos não serem deliberados pelo Conselho.
“Dá a impressão que a alteração na comissão faz o trabalho começar tudo de novo. Então, sua pergunta é importante para deixar claro. Os trabalhos continuam. Inclusive, quando eu nomeei as comissões, lá tem a explicação sobre isso. Eventualmente, uma ou outra pode mudar, o presidente. A de Justiça, por exemplo, ficou obrigada a mudar quando o presidente Osmar convocou três membros da Comissão de Justiça para ocuparem cargo na diretoria. Então, precisou fazer uma alteração grande nela. Só que o trabalho continua. Essa questão da apuração, na questão dos cartões (corporativos), por que foi para a Comissão de Justiça? Foi a mesma coisa no caso Augusto. Ele começou na Comissão de Justiça porque nós tivemos mais de dez requerimentos de pedido da apuração, inclusive um vindo do Cori. E no pedido do Cori, ele não pede só para apurar a questão dos cartões. Ele pede para apurar o furto e o vazamento das informações, o furto dos documentos que aconteceram, aqueles que o Ministério Público estava cobrando e a diretoria não conseguiu entregar tudo, porque sumiram os documentos”, iniciou.
“O Cori, no mesmo ofício, manda para mim pedindo para apurar tudo isso. Então, nós mandamos para a Comissão de Justiça porque não tinha o fato delimitado. Então, houve o uso do cartão e precisamos apurar toda uma série de situações. É mais ou menos o que o Ministério Público está fazendo, com uma diferença: o Ministério Público apura crime, como a polícia apura crime. Nós não temos competência para isso. No caso Augusto foi a mesma coisa. Quando surgiu aquela denúncia, eu mandei para a Comissão de Justiça. Ela ouviu uma série de pessoas e, quando entendeu que estavam configuradas algumas condutas relacionadas a determinadas pessoas, mandou para a Comissão de Ética. Nesse item, chegou um pedido de impeachment. Aí foi separado o caso específico do presidente, porque ele tem um rito específico no estatuto. Então, o fato de eu mandar para a Comissão de Justiça não significa que vai atrasar nada. Pelo contrário, vai ajudar o andamento quando isso for para a Ética. Mas, independente de ir para a Justiça ou para a Ética, isso vai acabar no Conselho Deliberativo para deliberar. Não tem o menor risco”, completou.
Andrés Sanchez está na mira da Comissão de Ética do Corinthians por uso indevido do cartão corporativo em 2020, com despesas pessoais de R$ 15 mil. Apesar do reembolso, novos extratos com gastos em Fernando de Noronha e até na Espanha aumentaram a pressão por punição. A situação se agrava porque uma reportagem do ge.globo também apontou o ex-presidente Duilio Monteiro Alves, que comandou o clube entre 2021 e 2023, por suposto uso de recursos do Timão em caráter pessoal, chegando a mais de R$ 80 mil em apenas um mês. Duilio nega, mas documentos internos e a assinatura de seu ex-motorista, Denilson Grillo, contestam a versão. Mesmo assim, suas contas de 2023 foram aprovadas pelo Conselho Deliberativo.
Romeu Tuma reforçou que a apuração de todos os casos está sendo conduzida pelos órgãos competentes, revelou que aguarda o envio de documentações por parte da diretoria do Corinthians e o agendamento de oitivas para que tudo seja detalhado antes de os casos irem ao plenário do Conselho.
“Eu vejo as pessoas falando que o Tuma está enrolando. Não estou protegendo ninguém. Isso vai ser decidido pelo Conselho, pelo plenário. Isso vai ser votado. De uma forma ou de outra, vai chegar lá. A Comissão está apurando. Teve um roteiro de trabalho que já foi deliberado pela Comissão. Ele está sendo seguido. Nós já cobramos a diretoria. É importante deixar claro. Pedimos uma série de documentos, não recebemos resposta ainda. Hoje à noite, eu tenho uma reunião com essa nova Comissão. Vai parecer que vamos deixar de amparar tudo o que está acontecendo para avançar. Já vou pedir novas diligências para que eles cobrem isso rapidamente. Eu sei que eles vão marcar novas oitivas que vão ser feitas. Está tudo andando. Eu fiz uma junção, é importante deixar claro isso. Que nem no caso do Augusto teve, está tendo agora. Eu pedi para o presidente da Comissão de Ética acompanhar os trabalhos da Comissão de Justiça, já para estar inteirado de tudo, para não cair na mão dele sem saber como direcionar isso na Ética. Então, sim, ele está fazendo um trabalho bastante rigoroso. Ninguém está protegendo ninguém aqui, então pode ficar tranquilo. O trabalho continua”, explicou.
O Ministério Público de São Paulo abriu investigação em agosto contra Andrés e Duilio, e logo depois incluiu Augusto Melo, presidente de 2024 a maio de 2025, no processo. O MP já ouviu nomes como Osmar Stabile, Romeu Tuma Júnior e Roberto Gavioli, e requisitou documentos ao clube, que já foram entregues pela atual gestão. A Comissão de Ética, por sua vez, não descarta até a expulsão de Andrés do quadro associativo. As apurações sobre os três ex-mandatários ainda estão no início.