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Gestora do Corinthians E-Sports acumula salários atrasados, processos e denúncias de jogadores

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O Corinthians E-Sports desde 2022 é administrado pela CDS, que, em 2024, passou a ser comandada por Milson Januário (centro)

O Corinthians E-Sports desde 2022 é administrado pela CDS, que, em 2024, passou a ser comandada por Milson Januário (centro)

Divulgação

Imagina se um dia alguém te oferece uma oferta para representar o Corinthians e com direito a um bom salário. Porém, ao chegar no clube, você não só não recebe o que tem direito como é exposto em situações precárias de trabalho e à pressão psicológica. Essa é a situação de vários atletas e ex-atletas de esportes eletrônicos, ligados a CDS, empresa que administra os times de e-sports do Timão.

O Meu Timão, em parceria com a página especializada Fiel TorcidaSCCP, apurou que salários atrasados fazem parte da rotina dos times de esportes eletrônicos do Corinthians. Mais que isso, alguns desabafos colhidos pela reportagem envolvem pressão psicológica e péssimas condições de trabalho.

A CDS está em dívida tanto com jogadores quanto com estafes das modalidades. À reportagem, ainda foi relatado que a empresa estaria pressionando os jogadores não só por resultados, mas também para não divulgar essas questões dos salários atrasados.

O Meu Timão também entrevistou Milson Januário, presidente da CDS e do Corinthians E-Sports, que reconheceu os salários atrasados, mas alegou que os casos não ultrapassam dois meses de inadimplência. "Nós estamos tratando de forma individualizada, caso a caso. Existem atletas que têm pendências, tem atletas que não têm pendência nenhuma. Tem situações que a gente renegociou a premiação, então aumentou o valor da premiação e em contrapartida quitou-se algumas pendências que tinha com os atletas", contou.

"A folha (salarial) gira em torno de R$ 400 mil. Hoje nós estamos com pendência na ordem de R$ 300 mil. Um prazo médio de 20 dias de atraso em relação aos salários dos atletas. Tem uns que são mais, tem outros que são menos, mas a gente tem como previsão de zerar esse passivo nos próximos 60 dias. Não existe pendência com nenhuma linha ou atleta superior a 60 dias", enfatizou.

Drummer, influenciador contratado para cobrir o E-Football (antigo PES) do Corinthians E-Sports, tirou narro nas redes sociais do dinheiro que tem a receber junto de outra cobrança de Fixa, jogador de Free Fire que deixou a organização recentemente

Drummer, influenciador contratado para cobrir o E-Football (antigo PES) do Corinthians E-Sports, tirou sarro nas redes sociais do dinheiro que tem a receber junto de outra cobrança de Fixa, jogador de Free Fire que deixou a organização recentemente

Reprodução / X

Ainda segundo relatos ouvidos pela reportagem, para pressionar, a CDS, na figura do Milson Januário, estaria ameaçando os funcionários do Corinthians E-Sports de processo sob argumento de quebrar diversas cláusulas de confidencialidade dos respectivos contratos que resultariam em uma suposta multa de R$ 500 mil. O Meu Timão teve acesso a alguns contratos assinados entre 2023 e 2024, que indicam multas de até oito vezes os salários, que variam entre R$ 1,5 mil e R$ 7 mil. Contudo, as fontes consultadas não quiseram das entrevistas por medo de represália interna.

“Só posso falar que estamos há quatro meses sem receber. Nada mais além disso. Essa semana está bem tensa. Estão procurando quem está vazando”, disse uma pessoa, que prefere permanecer anônima, à reportagem ainda em junho. “Prefiro não comentar sobre, pois ainda estou esperando meus pagamentos”, também comentou outro indivíduo.

Ao Meu Timão, Milson Januário rebateu: "Eu refuto qualquer tipo de atitude disso (de ameaças). Ao receber as suas perguntas, eu fui perguntar para todos os membros se alguém tinha colocado isso, de ter falado alguma coisa em relação a isso. Se isso aconteceu, feriu as normas da nossa organização, eu refuto veementemente isso. Como é o contato com os atletas? Existem managers. Há uma concentração das demandas através desses managers. Mas em relação aos atletas, todos tenho acesso e eles têm acesso a mim. Fazemos conversas diretamente quando é necessário."

"Eu não tenho conhecimento disso. Isso não saiu da nossa organização, de ninguém da nossa organização. O que existe multa de R$ 500 mil é a quebra de contrato. (...) Para evitar que houvesse qualquer tipo de quebra, a gente colocou uma multa e essa multa não foi criada por nós. Existe em todos os contratos uma multa para que você rompa o contrato, que é essa multa de R$ 500 mil", enfatizou.

Atrasos no Corinthians E-Sports não são de hoje

Atrasos nos pagamentos dos salários não são exclusividade desta temporada, tampouco da passada. Desde que a CDS adquiriu a licença para usar a marca do Corinthians, em 2022, jogadores relatam atrasos nos pagamentos e outras situações precárias.

Um deles, por exemplo, é Siandro “Tatu” Rech, jogador de Free Fire que entrou com ação em 2024 e teve causa de R$ 25 mil ganha na Justiça contra a CDS em janeiro deste ano. No processo, o jogador relatou que, em 2023, deixou o Rio Grande do Sul para defender o Corinthians E-Sports em São Paulo. A defesa do jogador também alegou que a casa cedida pela CDS não contava com itens domésticos (travesseiros, roupas de cama, etc.) nem com limpeza. A organização também não providenciou cadeiras e outros itens importantes para jogar Free Fire, segundo Tatu. À época, a CDS estava sob comando de Tatiane Peres Costa, conhecida como Tate, que, segundo Milson, não tem mais nenhuma atuação desde o início de 2025, quando repassou a empresa.

O processo também destacou que, por contrato, a CDS deveria fornecer alimentação a Tatu e aos demais atletas do time de Free Fire. Porém, a advogada do atleta disse que “após 25 dias, o envio cessou, obrigando o Reclamante a custear suas próprias refeições. Essa omissão o levou a passar fome em diversos momentos. Depois retornaram com o envio de marmitas congeladas, algumas azedas, outras com larvas”. Outro jogador, segundo a defesa de Tatu, teria passado um dia inteiro se alimentando apenas com uma caixa de bombons devido ao não envio de alimentos e ao atraso salarial.

A situação não é exclusiva de Tatu. Em 2024, Igor Bernardo, ex-técnico de Free Fire do Corinthians, ganhou na Justiça o processo movido em 2023, no qual pedia o pagamento de R$ 40 mil da CDS por não receber o que tinha direito após ser demitido. Já em 2025, o jogador de E-Football (antigo PES) Rafael Freire, conhecido como “Rafa Fiel”, pede R$ 176 mil do Corinthians e da CDS por salários atrasados e premiações que teria direito no período que representou o clube entre 2021 e 2024. Por sinal, maior parte dos processos atrelam o clube do Parque São Jorge por ser o detentor da marca, por mais que não tenha a ver com a organização.

Tatu e Igor venceram as respectivas ações contra a CDS, que não vem honrando os pagamentos. O de Rafa ainda está correndo na Justiça.

"A minha saída do Corinthians foi bem conturbada. Na final do campeonato, que seria o evento mais importante, o Milson em pessoa me proibiu de participar. A gente ficou um ano inteiro trabalhando e no final, que seria para concretizar o trabalho, ele me proibiu de participar. Três dias depois da final da competição fui comunicado do meu desligamento por um motivo completamente sem sentido. Ficaram pendentes valores do último salário e de premiação. Foi enviado uma tentativa de acordo, só que era um valor completamente inferior. Eu teria direito a aproximadamente R$ 24 mil e o acordo propunha só R$ 1 mil, que seria referente ao salário do mês final. Não fazia sentido eu assinar, já que o valor é totalmente inferior ao que tinha direito a receber", relatou em anonimato um ex-treinador, desligado no fim de 2024.

O Meu Timão teve acesso a um documento de novembro de 2024 que indica que a CDS estaria devendo R$ 1 milhão entre salários atrasados, empréstimos, processos e até R$ 140 mil para o próprio Corinthians pelo uso da marca. Ao portal, Milson Januário comentou que a dívida atual é de mais de R$ 1,3 milhão.

"É difícil dar esse número exato porque os processos estão em tramitação. Existe o que tem de liability, o valor total pleiteado nas ações, que superam R$ 1 milhão, só que isso está sendo negociado, está sendo discutido no âmbito judicial. O que posso dizer é que em termos salariais temos débito de R$ 300 mil e que em termos judiciais é perto de R$ 1 milhão, porque uma ação só, que refere a um canal de TV, é R$ 600 mil. Essa ação está em tramitação e a gente espera não ter que pagar nada, porque ela não é devida. Mas quem vai decidir é a Justiça, não sou eu", explicou.

Nova administração, novos problemas

Milson Januário, presidente do Corinthians E-Sports, vem atuando nos bastidores dos esportes eletrônicos alvinegros desde meados de 2024

Milson Januário, presidente do Corinthians E-Sports, vem atuando nos bastidores dos esportes eletrônicos alvinegros desde meados de 2024

Divulgação

Quando assumiu o controle da marca, a CDS pertencia a Tatiane Peres Costa, conhecida como Tate. Desde meados de 2024, porém, é o empresário Milson Januário quem estaria comandando o Corinthians E-Sports.

Formalmente, o empresário adquiriu a CDS em fevereiro deste ano. Contudo, o Meu Timão teve acesso a uma procuração de agosto de 2024 em que Tate dá a Milson o direito de atuar em nome da empresa. Em um Memorando de Entendimentos (MOU) de outubro de 2024, há uma formalização do interesse de Milson em comprar a companhia.

No LinkedIn, rede social voltada para o mundo do trabalhador, Milson Januário se coloca como Chairman do Corinthians E-Sports desde abril de 2024. A função é equivalente a presidente da empresa

No LinkedIn, rede social voltada para o mundo empresarial, Milson Januário se coloca como "Chairman" do Corinthians E-Sports desde abril de 2024. A função é equivalente a presidente da empresa

Reprodução / LinkedIn

Neste documento, inclusive, a então dona admite que a CDS possuiria débitos estimados em R$ 2 milhões e que o empresário já teria aportado R$ 600 mil na empresa. Também foi formalizada a compra, com Milson pagando R$ 150 mil em 17 parcelas entre outubro de 2024 e fevereiro de 2026.

Ao todo, Milson Januário já teria investido do próprio bolso por volta de R$ 750 mil para adquirir a CDS e controlar a marca do Corinthians E-Sports

Ao todo, Milson Januário já teria investido do próprio bolso por volta de R$ 750 mil para adquirir a CDS e controlar a marca do Corinthians E-Sports

Meu Timão

Milson Januário reconheceu que houve a assinatura do Memorando e explicou um pouco os investimentos que fez e segue fazendo no Corinthians E-Sports. "Quando nós assumimos a gestão, há cerca de um ano, havia um passivo muito grande. Nós começamos a fazer um aporte, mesmo antes de ter assinado o contrato. Nós liberamos perto de R$ 1,5 milhão para fazer frente aos passivos que estavam gritando. Os passivos eram salários, que estavam atrasados, e, principalmente, processos que estavam em andamento. No total, eram 31 processos que estavam sendo movidos contra a CDS e o Corinthians. Logo depois que nós assumimos esse número, cresceu para 61. Hoje, tem 43 ainda em aberto, que estão em tramitação e em fase de liquidação e pagamento", comentou.

"Desde outubro do ano passado, quando efetivamente foi feito o Memorial de Entendimentos, nós já colocamos perto de R$ 6 milhões na operação, através de recursos próprios. A coisa estava indo de uma forma normal, até que em 4 de abril desse ano fomos surpreendidos com uma ação judicial de uma loja de imóveis, cujo devedor era a pessoa física da antiga gestora (Tate) e essa ação bloqueou, impediu que a gente fizesse a gestão do negócio", ressaltou. Essa ação, segundo Milson, impossibilitou que contas fossem pagas por cerca de 60 dias - leia mais trechos da entrevista abaixo.

"Do valor total que nós investimos, até agora nós não tivemos receita nem de 10%. Até agora nós recebemos em valores de premiação, perto de R$ 500 mil. Deve ter mais uns R$ 500 mil que devem ser pagos ao longo do tempo. Há um descompasso muito grande entre a velocidade das despesas, dos pagamentos e das receitas. A maioria das vezes os pagamentos de premiação acontecem 90, 120 dias depois do fato ocorrido. E aí dá um completo descompasso na gestão", também reclamou.

Assim, em agosto de 2024, Milson Januário foi quem concedeu ao time de Free Fire a moradia para treinarem - a modalidade é a única que possui direito a uma game house, um centro de treinamentos para os atletas. Contudo, o local estaria sendo usado por um de seus sócios, Marcel, conhecido como Bola, para festas com garotas de programa e drogas, como maconha e cocaína. Em um vídeo enviado à reportagem, um dos atletas desabafou ao gravar o local: “Ó onde a gente joga… Tem gente menor (de idade) aqui! Ontem tivemos que jogar na cozinha.” Os atletas foram realocados provisoriamente, depois retornaram para casa em novembro de forma definitiva.

O Meu Timão teve acesso a supostas fotos da game house:

O Meu Timão recebeu denúncias de uso de drogas pesadas por um sócio de Milson na game house do Corinthians E-Sports

Meu Timão

O Meu Timão questionou Milson sobre a atuação de Marcel no Corinthians E-Sports. O empresário explicou que o ex-sócio não tinha nenhuma atuação na organização. "Em julho de 2024, assumi provisoriamente a CDS, comecei a ter participação no processo, porque a gente estava fazendo esse processo de diligência. Os atletas do Free Fire estavam de férias, cada um na sua residência, e eles teriam que voltar, só que o local que eles ocupavam até então havia sido pedido pelo proprietário e aí teria que ter algum local para que eles ficassem. Como eu estava em negociação com o Marcel, havia um local que ele ofereceu para que os atletas ficassem. Na última semana de julho, eles foram para esse local e eu estava em viagem", iniciou.

"Quando eu voltei, soube que houve um evento que envolvia uma festa com consumo de entorpecentes. Tomei a ação de retirá-los daquele ambiente. Eles foram transferidos para um local em Piracaia, ficaram lá por dez dias, e, atendendo a pedido deles - porque Piracaia fica longe de São Paulo - eles voltaram para a game house na metade de agosto. Tomei a providência de tirar essa coisa que prejudica o ambiente. Entre agosto e começo de novembro, eles ficaram lá. Eu ia diariamente ao local para ver se estava tudo em ordem, acompanhei tudo que estava acontecendo lá. Atendi todas as necessidades. Em novembro, eles foram para o Rio de Janeiro participar do Mundial, quando eles voltaram já foram para outro local que não era essa casa", seguiu.

Atualmente, os jogadores não ficam mais em uma game house. O Corinthians E-Sports paga para eles auxílios moradia e alimentação - que estão atrasados -, mas deixa a cargo deles onde vão viver. Contudo, há um centro de treinamentos onde eles praticam. "Cada um tem autonomia para definir o local que vai morar, com quem vai morar, uma vez que os atletas não são daqui da cidade de São Paulo. Há um centro de treinamentos que eles frequentam diariamente para fazer os treinamentos. Só os atletas (tem acesso)", comentou Milson.

Em 2025, Milson supostamente é quem estaria ameaçando os jogadores de processá-los caso explanem sobre a situação do Corinthians E-Sports e até oferecer acordos para que não falem para a mídia.

"Pelo menos nos primeiros contatos, a gente sempre foi muito bem recebido e tratado (pelo Milson), até porque ele tinha acabado de chegar. O problema foi da metade para o final, que foi quando ele conseguiu o controle sobre tudo, a confiança sobre todos e aí a relação ficou estranha. Era um ambiente mais tóxico, pesado. Já não tinha mais aquela relação amigável, como era antes. Essas últimas decisões dele foram as mais abusivas nesse sentido", desabafou um ex-funcionário.

"Sobre ameaças, diretamente não cheguei a receber, mas soube de pessoas que receberam. Inclusive, coisas bem pesadas. Jogadores que tentaram sair ou se impor de alguma forma e foram respondidos em forma de ameaça. Em questão de pressão, passava muito do ponto. Muito, mesmo. Era um ambiente muito pesado. Era um ambiente insustentável. Muita pressão psicológica e verbal. Ameaças de demissão o tempo todo. Ameaças de trocar a equipe o tempo todo. E isso na melhor fase da equipe, imagina se fosse na ruim. Foi algo bem pesado, mesmo. Bem tóxico", recordou na sequência.

O lado da CDS

A entrevista com Milson Januário teve uma hora de duração. O Meu Timão abordou as denúncias que recolheu durante sua apuração e também fez outras indagações no decorrer da conversa. Confira, abaixo, outros tópicos além dos citados ao longo da matéria:

Meu Timão: Quais times de E-Sports estão com salários atrasados? Por quais motivos?
Milson Januário: Não é possível responder dessa forma, porque nós estamos tratando de forma individualizada, caso a caso. Existem atletas que têm pendências, tem atletas que não têm pendência nenhuma. Tem situações que a gente renegociou a premiação, então aumentou o valor da premiação e em contrapartida quitou-se algumas pendências que tinha com os atletas.

Milson: Nós só conseguimos ter o controle total da empresa há cerca de um mês, quando tirou-se esse impedimento que estava na junta comercial para que a gente atuasse como gestor da CDS.

Milson: Foi uma loja de imóveis, o valor da compra era de R$ 30 mil e a ação era da ordem de R$ 65 mil. Mas o juiz determinou que fosse liquidado, que fosse feito um balanço especial, como se tivesse declarado a falência da companhia por conta dessa ação. E essa ação corria em segredo de Justiça, a gente não tinha conhecimento dessa ação. Era uma ação que tinha desde 2022 de cobrança de pagamentos ou inadimplência na compra desses móveis. e que o juiz autorizou a descaracterização da pessoa física e autorizou que as cotas da CDS fossem usadas para pagar.

MT: Os auxílios moradia e alimentação também estão em atraso?
Milson: São 120 atletas, então há várias situações. Tem atletas que não têm esse auxílio, não está previsto esse auxílio (moradia). Esse auxílio está previsto só quando eles vêm trabalhar, atuar presencialmente. Tudo isso está sendo tratado caso a caso, a gente tem contato diário com os atletas e não tem nenhuma situação. onde há um eminente situação de despejo, coisa do tipo, tá? Isso não existe.

MT: Esses atrasos tem a ver também com os processos que a CDS vem enfrentando?
Milson: Existem perto de 40 processos em andamento. Então, os processos estão sendo liquidados à medida que é possível liquidar. E, como eu te disse, nesse período que ficou impossível a gente atuar, houve bloqueios nas contas, houve ações inescrupulosas de saque de valores de premiação da conta por pessoas ligadas à antiga gestão. Por exemplo, do valor de R$ 300 mil, que é a nossa pendência, R$ 250 mil foram retirados da conta da CDS de uma forma não correta.

MT: Em qual momento você começou a atuar na CDS e comandar efetivamente a organização?
Milson: Numa linha de tempo, em 4 de outubro (de 2024) eu assinei um Memorando de Intenções com a antiga gestora. Eu comecei a atuar na CDS em julho do ano passado (2024). Como eu disse, de julho a outubro foram feitos aportes que montaram cerca de R$ 1,5 milhão para manter a operação. Em outubro, nós fizemos, depois de ter feito um raio-x do negócio, decidiu-se que eu seria o único proprietário da empresa. Em outubro, houve a assinatura de um Memorando de Intenções. Entre outubro, novembro e dezembro, nós ficamos dedicados mais à questão do competitivo, na montagem de novas linhas, nos preparando para ir para o Mundial de Free Fire. Em janeiro (de 2025), houve a assinatura do contrato social, onde foram transferidas as cotas para mim. Esse contrato social foi homologado na junta comercial no dia 14 de fevereiro. A partir disso, começamos a fazer ações no sentido de ter o controle das contas bancárias, de tomar por completo a gestão do negócio. Só que em 4 de abril houve essa ação judicial que impediu que a gente atuasse como gestor. Isso acabou demorando até começo de junho para que a gente efetivamente assumisse a operação. A antiga gestora ficou de outubro até janeiro, até que assinasse o contrato social efetivamente. a transferência das cotas, ela ficou fornecendo informações. Como gestor da organização, eu fui de fevereiro até abril. Daí abril teve um hiato e a gente voltou a fazer toda a gestão em junho.

MT: A Tate ainda atua na CDS/Corinthians E-Sports?
Milson: Desde o dia 14 de março não tenho nenhuma troca de mensagem ou conversa com a Tatiana. Ela deixou de atuar a partir do momento que foi feita a assinatura do contrato social em meados de janeiro.

MT: Qual era o cargo de Marcel no Corinthians E-Sports?
Milson: Nenhuma (atuação no Corinthians E-Sports). O Marcel tem alguns negócios comigo antes mesmo do Corinthians E-Sports, assinamos, em outubro de 2023, um Memorando de Entendimento que visava o estudo da possibilidade de fazer a fusão da minha empresa com as empresas dele. Isso perdurou até outubro de 2024, que era o prazo desse Memorando de Entendimento, e, ao final desse prazo, a gente concluiu que não haveria prosseguimento nessa fusão.

Milson: Em julho de 2024, assumi provisoriamente a CDS, comecei a ter participação no processo, porque a gente estava fazendo esse processo de diligência. Os atletas do Free Fire estavam de férias, cada um na sua residência e eles teriam que voltar, só que o local que eles ocupavam até então havia sido pedido pelo proprietário e aí teria que ter algum local para que eles ficassem. Como eu estava em negociação com o Marcel, havia um local que ele ofereceu para que os atletas ficassem. Na última semana de julho eles foram para esse local e eu estava em viagem (...).

Milson: Ao voltar (das férias), a gente já estava fazendo um processo de discussão da mudança do formato de ser uma game house. A gente iria pagar um auxílio moradia e refeição e hoje é assim (...).

MT: O Corinthians E-Sports tem alguma chance de ficar fora do Brasileiro de Free Fire por essas dívidas?
Milson: Nenhuma. A organizadora pediu para todas as organizações prestarem contas e nós prestamos. Não tem nenhuma coisa que impeça a gente de participar. O nosso time está completo. Não tem nenhuma possibilidade de a gente não participar.

MT: Foi relatado à reportagem, ameaças para que os jogadores do Corinthians E-Sports não procurassem a imprensa e até uma suposta multa de R$ 500 mil. Como a CDS lida com isso?
Milson: Essa questão de falar com a imprensa, não está no contrato. Nem tem estabelecido nenhuma multa relativa a isso. Existe no contrato casos, por exemplo, você precisa de autorização para fazer live ou ativação na internet e não é uma multa específica a isso. São multas relativas a ter alguma cláusula do contrato não observada. Não tem nenhuma cláusula no contrato que não pode falar com A ou B, existe a necessidade de que quando for fazer alguma ativação, isso tem que ser comunicado à organização. Mas nós nunca aplicamos multa. O que já houve foi desligamento por comportamento inadequado, mas não aplicação de multa por ter feito alguma publicação. Quando há alguma irregularidade, a gente adverte o atleta, mas, até hoje, não aplicamos nenhum tipo de multa.

MT: Qual seria um comportamento inadequado?
Milson: Por exemplo, a gente refuta veementemente fazer propaganda do Tigrinho. Isso é um comportamento inadequado. Outra advertência feita foi que, sem autorização da organização, foi aberta uma live logo depois de um desempenho não muito bom. E aí nós advertimos que essa live não era para ter acontecido.

MT: O Corinthians E-Sports tem problemas recorrentes nas games houses, como em 2023 e 2024, o que a CDS faz para garantir o bem-estar dos jogadores do Corinthians?
Milson: Optamos por não ter game house e ter pagamento de auxílio moradia e refeição para que cada um tomasse a melhor decisão. Naquelas linhas que, por um período mais curto, seja um mês ou 15 dias, a gente os coloca em lugares que são usados por todo o cenário. Foram os casos do LOL e do Valorant, da Apex, do Mobile Legends… Todos ficaram alocados em lugares que já são usados por outras organizações, com toda a infraestrutura e com todo o apoio que é necessário.

MT: Está tendo uma onda de páginas e ex-influenciadores que acompanham o Corinthians E-Sports denunciando. Isso atrapalha?
Milson: Ser Corinthians dá um bônus e um ônus. No caso do bônus, ainda não tivemos, no sentido da busca por patrocínio e parcerias, em face dos eventos que narrei, acaba dificultando. A questão do ônus é que acaba tendo uma dimensão muito maior. Essa semana mesmo negociei com um outro grupo de atletas para a gente reforçar uma das linhas e a narrativa deles em relação às situações onde eles viviam, era do tipo que quase ‘você tem que parar de fazer academia porque come demais’, coisas desse tipo. Mas isso não chega na grande imprensa. Existem obstáculos, que não sei a quem interessa para que a coisa não funcione. Apesar de todas essas intercorrências, em termos de competitivo nós temos entregado muita coisa. O Corinthians fazia cinco anos que não participava do Mundial de Free Fire e no ano participou. Nós participamos do Mundial de stand-off. Nós fomos vice-campeões da América no Free Fire, pegamos o terceiro lugar no Brasil. Nosso time de Apex participou do Mundial e o Corinthians nem tinha um time de Apex. O Corinthians conquistou o Campeonato Americano no Mobile Legends. Vamos representar pela primeira vez o Corinthians na EWC, que é a Copa do Mundo dos jogos. É uma posição muito exclusiva. Poucas organizações conseguiram fazer isso. O Corinthians no E-Football tinha como desempenho campeonatos locais e estamos participando de torneios mundiais. Foram em Manchester, Londres, Milão, Barcelona, teve um campeonato mundial da Konami na China e tivemos quatro atletas, sendo um campeão. Agora no Japão vai ter o Mundial de E-Football e, de 32 atletas, quatro são do Corinthians. Nós ficamos em terceiro lugar no One of Kings, quarto lugar no PUBG. No Valorant, nós estamos no playoff da categoria, que pode dar classificação para a primeira divisão. De uma forma geral, a nível competitivo, hoje somos a competição que tem maior número de linhas. Nós criamos o primeiro time de atletas da Batalha de Rima. No Rocket League, hoje somos terceiros na América, estamos disputando uma vaga para a EWC. Nosso time de Mobile Legends está hoje nas Filipinas participando do Bootcamp e se preparando para a EWC. Então, os resultados por si só falam do como nós estamos tratando esse negócio e respeitando as cores do Corinthians. Agora, a quem interessa toda essa instabilidade e essa amplificação dessas coisas, aí já não sei. Quando você fala que em 2023 teve as coisas das larvas, eu não estava. Esse evento de agosto na game house, nós tomamos as providências e isso não se repetiu. A gente está numa curva de aprendizado. Estamos tomando como regra que a partir do ano que vem todos os atletas têm que estar fazendo uma faculdade ou curso de formação. O objetivo para o ano que vem é que todos os atletas estejam cobertos pela CLT e pela Lei Geral do Esporte. Não conheço nenhuma organização que trata dessa forma. Temos uma preocupação muito grande com ESG.

MT: Quem são os "eles" que você se refere?
Milson: Aí eu vou estar fazendo juízo de valor, mas, por exemplo, o fato da gente ter tido uma ação que proibisse a gente de atuar. A quem interessa isso? Existe ter esses resultados que eu te narrei, ter o potencial dá marca, ter atletas que estão performando visivelmente. O Corinthians incomoda, tem muito antis. Se tem 14% de brasileiros que são corinthianos, tem 86% que não são corinthianos. A marca do Corinthians é muito forte. Então, as coisas se amplificam quando se fala de Corinthians.

MT: Você narrou que houve resultado esportivo, mas administrativamente não tem conseguido andar. Você acha que talvez seja inviável para a CDS seguir no comando do Corinthians E-Sports?
Milson: Em hipótese alguma. Os obstáculos todos nós estamos superando. É uma curva de aprendizado. O resultado competitivo está vindo. O fato de a gente ter tido essas intercorrências não foram causadas por má administração, por má gestão. Nós acabamos tendo que enfrentar obstáculos que vão além do cenário competitivo, que vão por questões criminais, pessoas que vão e sacam dinheiro na conta. Isso atrapalha bastante você fazer a gestão da empresa tendo que enfrentar pessoas inescrupulosas. Atrapalha bastante o fato de você ficar por dois meses sem poder fazer a gestão do seu negócio por ordem judicial. Até abril, quando saiu essa decisão da justiça, estava tudo sob controle, funcionando perfeitamente. Por dois meses nós ficamos tendo que administrar de uma forma muito frágil o negócio. Nós não conseguíamos ter acesso às contas, os pagamentos dos acordos judiciais foram prejudicados. Com isso, houve execução e pagamento de multas, coisa que não estava no controle. Eu não poderia imaginar que a compra, que a pessoa física da ex-gestora não ter pago uma compra de um móvel em 2022 pudesse impossibilitar a gestão da empresa em 2025. Mas são coisas que a gente tem que enfrentar obedecendo os contratos, as leis, as regras que norteiam a nossa sociedade.

MT: Vocês mantêm contato com o Corinthians?
Milson: Tudo isso que está acontecendo, temos relatado por Corinthians. O Corinthians, de certa forma, nós evitamos que o Corinthians tivesse um prejuízo muito grande. Parte desses R$ 8 milhões que nós aportamos, foi para pagar pendências relativas à gestão anterior. Se a gente não tivesse assumido esses compromissos, Essa conta poderia sobrar para o Corinthians pagar. O Corinthians sabe como nós estamos tratando e junto com o jurídico do Corinthians, eles têm total conhecimento de tudo o que está acontecendo.

MT: Qual é o acordo atual com o Corinthians?
Milson: Não sei se posso falar, porque temos sigilo, mas espero que por muito tempo, porque o contrato tem uma data de finalização e a gente já está discutindo para prorrogar essa data. O projeto não é de seis meses. Ele só vai ser economicamente viável se for de longo prazo. Acredito nas relações de longo prazo.

MT: Tem considerações finais?
Milson: A grande mola propulsora para que eu entrasse nesse negócio foi a minha paixão pelo clube. Foi a paixão pelo competitivo e pelo potencial de mudança que o esporte pode atuar na sociedade. Eu fico muitas vezes desmotivado quando vejo comentários do tipo que a gente tem falta de trabalho, que a gente está tomando vantagem sobre o Corinthians. A gente não recebe nenhuma ajuda de custo do Corinthians, nenhum repasse. Muito pelo contrário, o nosso contrato pressupõe que a gente pague para representar o Corinthians. Nos últimos seis meses, desde outubro do ano passado, a gente está em negociação com o Corinthians para colocar o contrato de uma forma que ele tenha mais sustentação, por conta dos repasses e da divisão de receitas. A gente tem conversado no sentido de estabelecer as cláusulas do contrato de dar forma para viabilizar o modelo do negócio. Da forma que o modelo está sendo transacionado, dificilmente se sustentaria o negócio, por conta da divisão das receitas e das participações. Nós estamos no estágio final dessa negociação.

Milson: O Corinthians, em todos os aspectos, deve ser preservado acima de qualquer coisa. Houve falhas, mas não foi por falta de trabalho ou por ganância. A partir do momento que a gente se dispõe a fazer isso, a gente tem que estar preparado para as críticas. Agora, quando as críticas são construtivas, a gente tem que acatar e fazer. Agora, aquelas críticas que só têm como objetivo destruir, elas machucam. Falaram que estou tirando proveito do Corinthians, mas não há nenhum repasse do Corinthians para o Corinthians E-Sports. Não estou dizendo que deveria ter. Mas dá a entender que a gente se aproveita do Corinthians como oportunista. Muito pelo contrário, o contrato prevê que a gente pague pelo Corinthians para representá-lo. Falaram que a gente não trabalha e que somos vagabundos, o que não reflete à realidade. Até me afastei dos meus outros negócios para me dedicar 100% ao Corinthians E-Sports. Trabalho de forma total, 24/7, 365 dias, para que esse projeto atinja todo o potencial que ele possa atingir. Isso reflete nos nossos resultados.

Milson: Uma vez que a gente supere essas questões financeiras, vamos colocar o nome do Corinthians onde ele merece ser colocado. O nome do Corinthians vai subir mais ainda. Não vai ser o Corinthians das larvas ou o 17º colocado do Free Fire, como quando eu assumi o projeto.

O lado do Corinthians

A reportagem também procurou o Corinthians, tendo em vista que a marca principal da equipe pertence ao clube do Parque São Jorge, na última quinta-feira. Não houve retorno. Os questionamentos enviados foram:

  1. O Corinthians faz algum monitoramento de como a CDS vem trabalhando a marca do Corinthians? Há alguma troca ou cobrança com a CDS?
  2. Vocês pensam em rescindir o vínculo com a CDS tendo em vista os diversos processos que o Corinthians acaba sendo atrelado?
  3. Diante dos processos e das denúncias, qual será a conduta do Corinthians daqui para frente?

O texto será atualizado caso haja algum retorno.

Veja mais em: Corinthians no e-Sports e Diretoria do Corinthians.

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