Zé Elias demonstra preocupação com o momento do Corinthians e analisa possibilidade de SAF
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Por Felipe Sales, Lucas Faraldo e Vitor Chicarolli

Zé Elias, durante sua participação no programa "E o Corinthians?", do Meu Timão
Meu Timão
Ídolo do Corinthians, o ex-volante Zé Elias comentou sobre a crise política que atinge o clube de Parque São Jorge. Em entrevista ao E o Corinthians?, programa do Meu Timão no YouTube, o ex-jogador demonstrou preocupação com os rumos da instituição e criticou a condução das gestões do clube, marcadas por escândalos e instabilidade nos bastidores.
"Me sinto triste, porque entrei no Corinthians com cinco anos. Meu primeiro jogo foi dia 22 de agosto de 1982 contra o Paineiras, no Morumbi, no futsal, e fiquei até os 20 anos. Todas as pessoas que estão no meio, não conheci Augusto, mas conheci Mané da Carne, André Negão e Andres (Sanchez) desde os meus dez anos. Me sinto triste porque sei da paixão dessas pessoas, que também gostam do Corinthians, mas pela forma como foi conduzido até onde chegamos. O Corinthians poderia ter conduzido e ter tido um cuidado melhor, principalmente com a instituição. Hoje, quando você fala de Corinthians, fala de página policial, não fala de futebol. Você fala: 'O que vai ser do Corinthians? Será que vai ter dinheiro para contratar? Como vai ser o desdobramento desse caso policial? Existe a entrada do crime organizado dentro do clube?' A que ponto chegamos", iniciou.
"Existem todos esses envolvimentos policiais que deixam o torcedor envergonhado. Existe uma linha tênue entre 'time do povo' e aquilo de 'você vê corinthiano e sai correndo' (fazendo referência a ser "time de bandido"). Quando você passa a ligar uma coisa à outra, a maior vergonha é para o torcedor corinthiano. Me sinto envergonhado. Não é esse o clube que cresci, que vi a torcida e minha mãe chorar pelos títulos. Para mim, como corinthiano, é forte ver a torcida invadir o clube e falar: 'Parabéns, estamos cansados de vocês prejudicando o clube'", completou.
No início de junho, o Parque São Jorge, sede social do clube, foi ocupado pelas principais torcidas organizadas do Corinthians. O objetivo da mobilização foi protestar contra os diversos problemas políticos envolvendo o Timão e cobrar a reforma do estatuto do clube.
Um dos episódios mencionados por Zé Elias se trata do suposto desvio da comissão do patrocínio máster da VaideBet. O caso resultou no indiciamento do presidente afastado Augusto Melo, além de outros ex-dirigentes do clube, como Sérgio Moura (ex-superintendente de marketing), Marcelo Mariano (ex-diretor administrativo), Yun Ki Lee (ex-diretor jurídico) e Alex Cassundé, apontado como intermediário da empresa Rede Social Media Design. Eles foram indiciados por associação criminosa, lavagem de dinheiro e furto qualificado.
O ídolo do Timão fez questão de destacar que nunca se envolveu politicamente com o clube, apesar da relação de amizade e respeito com figuras conhecidas da política no Parque São Jorge. Ainda assim, voltou a criticar a atuação desses personagens na fomentação das dívidas que hoje comprometem o Corinthians.
"Nunca me envolvi politicamente. A minha amizade sempre foi de muito respeito. Nunca me envolvi nessa parte política. Por exemplo, minha relação com o André Negão, o Andrés e o próprio Mané da Carne são relacionamentos de conversar, mas nunca entrei na política nem dei abertura e eles também não. Nunca desejei ter esse tipo de relacionamento. Sinto ainda mais pelo fato de conhecer essas pessoas e saber que foram elas que deixaram o Corinthians nessa situação com as questões financeiras e, agora, nas páginas policiais com o Augusto. Fico mais sentido por isso, porque conheço e sei que poderiam ter feito algo melhor para o clube", detalhou.
No balanço financeiro apresentado em abril pela gestão do presidente afastado Augusto Melo aos órgãos responsáveis pela fiscalização interna do clube, a dívida bruta do Corinthians alcançou a marca de R$ 2,568 bilhões.
Você é a favor do Corinthians se tornar uma SAF?
Em outro momento da entrevista, Zé Elias foi questionado sobre a possibilidade de o Corinthians se tornar uma SAF (Sociedade Anônima do Futebol), tema cada vez mais debatido entre os torcedores. O ex-volante afirmou que, antes de cogitar a mudança de modelo, o clube deveria promover uma reforma em seu estatuto. Ainda, segundo ele, caso opte pela profissionalização da gestão, o Corinthians precisa estudar com atenção os exemplos já existentes no mercado, avaliando os acertos e erros de outros clubes que adotaram o formato SAF.
"Antes de virar SAF, acho que tinha que existir uma lei mais forte até em relação ao estatuto do clube. No Flamengo tem isso: se for comprovado que o dirigente causou problemas financeiros para o clube, ele paga com os próprios bens. Tem uma questão estatutária quanto a isso. Poderia ser feito isso no clube (Corinthians), porque pode vir um presidente de SAF e fazer as mesmas coisas. É só ver como foi a 777 com o Vasco. Mesma situação, até pior, porque ninguém sabe o que vai acontecer. Se o Corinthians fosse buscar esse caminho como SAF, tinha que pegar todos os exemplos bons e ruins, fazer uma pesquisa, entender, elencar o que é bom e ruim para o momento atual do Corinthians e o que ele pode se tornar após a SAF. Tem que ter mecanismos muito mais fortes em relação à parte financeira, porque o clube vem sendo lesado sistematicamente nos últimos anos. Isso precisa parar. Com a arrecadação que tem o Corinthians, não pode depender da torcida para pagar o estádio. Acho que é uma vergonha para Andrés, Roberto de Andrade, Mário Gobbi e essas gestões. A torcida ter a responsabilidade que eles não tiveram… ", opinou.
Um dos projetos que surgiram recentemente sobre a transformação do Corinthians em SAF é a Safiel, formada por um grupo de torcedores do clube. O modelo apresentado prevê uma estrutura de governança em três níveis: os proprietários (torcedores investidores), um conselho de governança (formado pelos conselhos de administração e fiscal) e a gestão executiva, sob o comando de um CEO.
Caso o projeto seja adotado futuramente, os cotistas teriam o direito de eleger cinco membros para o conselho de administração e cinco para o conselho fiscal, que seriam responsáveis pela condução da gestão do clube. Vale lembrar que, para que um modelo de SAF seja implementado no Corinthians, o clube precisaria realizar uma mudança em seu estatuto para permitir a adoção desse formato.