'Bicho' atrasado e chapéu na Adidas: como foi o acerto entre Corinthians e Nike em 2002
6.9 mil visualizações 41 comentários Reportar erro
Por Victor Godoy

Ainda em 2002, a Nike apostou no Corinthians para garantir uma soberania no Brasil
Reprodução / Globo
Na última semana, o Corinthians acertou a renovação com a estadunidense Nike. O contrato, que tinha validade até o fim de 2025, foi ampliado até 2035 e, com isso, chegará a 33 anos de duração. O Meu Timão te conta como foi o primeiro acerto entre o clube e a produtora, em dezembro de 2002, que, curiosamente, possui algumas similaridades com o novo acordo. Confira!
"Bicho" da Copa do Brasil atrasado e crise financeira

Em 2002, o Corinthians conquistou a Copa do Brasil ao bater o Brasiliense na final pelo agregado de 3 a 2
Reprodução
O primeiro semestre de 2002 foi marcado com a conquista da Copa do Brasil por parte do Corinthians. Antes de triunfar perante o Brasiliense, a equipe comandada pelo técnico Carlos Alberto Parreira despachou São Paulo, Paraná, Cruzeiro, Americano-RJ e River-PI para erguer a segunda taça da competição de sua história.
A conquista, porém, virou dor de cabeça. A diretoria do Corinthians não conseguiu honrar com o "bicho" - tradicional premiação no mundo do futebol - concedido ao elenco pelo título. Além disso, o clube também vinha atrasando o pagamento dos direitos de imagens dos campeões.
O principal motivo dessa crise financeira era o fim da parceria com o fundo de investimentos norte-americano HMTF (Hicks, Muse, Tate & Furst), que injetava altas quantias de dinheiro no Parque São Jorge desde 1999, além de negociar com empresas. Foi o grupo, por exemplo, que contratou o atacante Edílson, o zagueiro paraguaio Gamarra, o volante Vampeta e o técnico Vanderlei Luxemburgo, além de ter negociado com a patrocinadora máster Pepsi. Havia, ainda, a promessa da construção de um estádio, no terreno que viria a ser utilizado para o surgimento da Neo Química Arena.
Contudo, em 2001, o fundo registrou prejuízo de 700 milhões de dólares na América Latina e fechou sua atuação no continente. O Corinthians resistiu, mas viu o grupo dizer adeus em agosto de 2002. O fato atrapalhou no pagamento do estrelado elenco e negociações de patrocinadores.
O atraso do pagamento do "bicho" e dos direitos de imagens fez com que o elenco do Corinthians montasse uma "chapa de negociação". Rogério, Vampeta, Guilherme, Scheidt e Fábio Luciano, líderes daquele plantel, se reuniam com a diretoria de Dualib para tratar dessas pendências.

Na época, Alberto Dualib ainda estava no segundo dos seus quatro mandatos como presidente do Corinthians
Reprodução/TV
"Querendo ou não, essa situação (atraso de pagamentos) atrapalha em campo. Para mim, está faltando o prêmio da Copa do Brasil e o direito de imagem de outubro. Mas logo vai vencer novembro. Tem gente que está em situação diferente", chegou a desabafar Rogério em entrevista à Folha de São Paulo, às vésperas do primeiro jogo das quartas de final do Brasileiro, contra o Atlético-MG.
Apesar dessa crise financeira, o Corinthians conseguiu avançar com tranquilidade para o mata-mata do Campeonato Brasileiro, encerrando a primeira fase na terceira colocação, com 43 pontos. A equipe até chegou na final após bater Atlético-MG e Fluminense, mas perdeu pelo agregado de 5 a 2 para o Santos, que contava com nomes históricos, como Elano, Diego e Robinho.
Nike na mira da Justiça, mas buscando a "tríplice coroa"
A Nike também não vivia a melhor das fases no Brasil. Apesar de estampar seu logo na camisa da Seleção Brasileira - que celebrou o título da Copa do Mundo de 2002 -, de patrocinar o Flamengo e de ter sua marca nos pés de Ronaldo Fenômeno, principal atacante do mundo na época, a empresa ainda sofria as consequências da CPI da CBF/Nike. A Comissão Parlamentar de Inquérito produziu um relatório, em 2001, que, entre outros apontamentos, acusava a companhia estadunidense de interferir nas convocações e até nas escalações da Seleção.

A nível de curiosidade, a CPI da Nike custou o cargo de técnico da Seleção Brasileira e o nome de Wanderlei para Luxemburgo, que passou a usar o V no lugar do W
Jhony Inácio/Meu Timão
Com a imagem um tanto arranhada, a Nike sonhava em patrocinar o Corinthians para não só melhorar a visão popular como completar a "tríplice coroa" do futebol brasileiro. Com Timão, Seleção Brasileira e Flamengo sob seu guarda-chuva, os estadunidenses entendiam que seriam a marca mais forte em solo nacional.
Adidas fez proposta de nível global para o Corinthians
Paradoxalmente a isso, o contrato do Corinthians com a argentina Topper chegaria ao fim na virada de 2002 para 2003. Inicialmente, o Timão desejava resolver a questão apenas ao fim do Brasileirão, mas a crise financeira antecipou os planos.
Apesar da Topper ter a preferência pela renovação, a alemã Adidas foi quem largou na dianteira segundo registros da época. A proposta, além de render bem mais que os R$ 3 milhões anuais que os argentinos pagavam, previa exploração da marca do Corinthians em todo o mundo. A oferta dos europeus envolvia tratar o Timão no mesmo patamar de Real Madrid e Bayern de Munique, principais clubes da companhia, com camisas alvinegras ao redor do globo e presença no site oficial da empresa - algo inovador nos anos 2000. Mais que isso, a Adidas chegou a cogitar patrocinar atletas do plantel e pagar os direitos de imagens que estavam atrasados.
"Recebemos propostas da Nike, da Topper e da Adidas, mas temos que pensar bem. Os valores são até parecidos, mas cada uma deles está oferecendo um diferencial no contrato. Isso é o que nos interessa", chegou a comentar, em novembro de 2002, Antonio Roque Citadini, então vice-presidente de futebol, à Folha.
O Meu Timão entrou em contato com Roque Citadini. O ex-vice-presidente relembrou que a proposta da Nike nem era a melhor, mas o que pesou foi o projeto apresentado: "Foi uma disputa da Nike com outras empresas. Nós tínhamos Topper e tal. Na verdade, eles (Topper) fizeram uma proposta melhor, mas nós tínhamos interesse na Nike. Achávamos que era importante o Corinthians ter uma grande empresa de material, então se optou pela Nike."
Foi a Nike, porém, que assinou com o Corinthians

Divulgação / Nike
Mesmo com as especulações, a Nike assinou com o Corinthians em dezembro de 2002. O acordo só foi oficializado em 2003 por causa de uma cláusula no contrato com a Topper, que previa pagamento de multa caso algum anúncio atrapalhasse suas vendas.
O acordo colocou o Corinthians como o clube mais bem pago do Brasil, com a Nike desembolsando mais de R$ 8 milhões por ano. O valor era mais que o dobro do que a Topper pagava e superior aos R$ 6,5 milhões que os estadunidenses destinavam ao Flamengo.
"Nós queríamos uma empresa grande como a Nike, uma empresa internacional. Foi isso que nos levou a optar", comentou Roque Citadini ao Meu Timão. "Tanto que está até hoje, né? Tem mais de 20 anos."
Atraso na primeira camisa, mas estreia com pé direito
Como a Nike foi oficializada apenas na virada para 2003, o Corinthians previu receber os novos uniformes na segunda quinzena de janeiro. As vestimentas, porém, chegaram apenas em fevereiro, obrigando o Timão a vestir a Topper, que passou a patrocinar o São Paulo, na disputa da Copa São Paulo de Futebol Júnior e no início do Campeonato Paulista.
"A primeira inovação ficou por conta da camisa número dois, que voltou a ter listras verticais na frente - o último modelo, ainda fabricado pelo ex-fornecedor, a Topper, era preto, com detalhes em branco. A camisa número um é a tradicional branca, mas com detalhes próximos à gola na cor preta", escreveu a Folha - relembre as peças clicando aqui. As vestimentas estavam sendo vendidas por R$ 99,90.
Assim, no dia 5 de fevereiro de 2003, o Corinthians recebeu o Cruz Azul, do México, pela Libertadores de 2003. O centroavante Liedson marcou o único gol da partida. Relembre os melhores momentos do confronto:
De lá para cá, a parceria consolidou-se como um sucesso. Agora, 20 anos depois, o Corinthians volta a negociar com a Nike para ter dinheiro e quitar pendências com seu elenco, além de almejar maior internacionalização da marca. O acordo com a empresa norte-americana, que terá duração até o fim de 2035, deve ser oficializado em breve.