Polícia conclui inquérito da VaideBet e indica ligação entre diretoria do Corinthians e PCC
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Por Meu Timão
Augusto Melo foi indiciado pela Polícia Civil no caso VaideBet
Jozzu/Agência Corinthians
A Polícia Civil de São Paulo concluiu o inquérito a respeito do caso VaideBet no Corinthians. O relatório, ao qual o Meu Timão teve acesso, confirma o indiciamento de quatro nomes ligados ao clube, além de apontar suspeitas de pessoas relacionadas à gestão de Augusto Melo, presidente afastado, à UJ Football Talent Intermediação Ltda, ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Augusto Melo, Sérgio Moura (ex-superintendente de marketing), Marcelo Mariano (ex-diretor administrativo), Yun Ki Lee (ex-diretor jurídico) e Alex Cassundé (suposto intermediário da Rede Social Media Design) foram indiciados por associação criminosa, lavagem de dinheiro e furto qualificado. O relatório parcial, divulgado em maio, só não havia citado Yun Ki Lee. O inquérito agora passará ao Ministério Público, que vai acatar ou arquivar a denúncia.
A principal novidade é a possibilidade de nomes próximos ao mandatário afastado estarem conectados à UJ Football. Segundo o relatório, a operação através das empresas fantasmas não chegou à UJ "de simples coincidência", mas sim por "retribuição a compromissos financeiros pendentes" a Augusto Melo, citando as eleições presidenciais do clube de 2023 como ponto-chave.
"Em síntese, as evidências angariadas ao longo da Apuração Policial indicaram, sem qualquer lastro de dúvida, que os recursos financeiros enviados pelo Sport Club Corinthians Paulista à REDE SOCIAL MEDIA DESIGN foram, na realidade, subtraídos dos cofres da Agremiação, a partir da inserção da citada empresa em um negócio jurídico dito simulado (a intermediação), do qual o seu sócio, ALEX FERNANDO ANDRÉ, efetivamente não participou e nem sequer concorreu, o que acabou permitindo o direcionamento dos recursos então desviados, após terem transitado por contas bancárias de empresas fantasmas (Neoway → Wave e Victory), à conta bancária da empresa UJ Football Talent.
Além disso, emerge a conclusão de que o capital furtado não encontrou seu destino final na aludida Agência de Jogadores à toa. Não se trata, certamente, de simples coincidência, muito menos de mero acaso. A UJ FOOTBALL TALENT recebeu esses valores como retribuição a compromissos financeiros pendentes assumidos por AUGUSTO PEREIRA DE MELO e seus acólitos, conforme doravante se demonstrará."
O mandatário e os dirigentes se tornaram alvos da investigação pelo contrato de patrocínio com a casa de apostas, concretizado em janeiro do ano passado. No entanto, os repasses dos valores pagos pelo Corinthians na intermediação do acordo levantaram suspeitas de um suposto esquema de "laranja". O destinatário final do dinheiro era a UJ Football Talent Intermediação Ltda., empresa apontada como um dos braços do PCC.
Dentre os R$ 360 milhões em três temporadas, o contrato estipulava que 7% do total (cerca de R$ 25 milhões) ficaria com a intermediação do acordo, no caso Alex Cassundé, sócio da Rede Social Media Design LTDA. O Corinthians pagou duas parcelas de R$ 700 mil (R$ 1,4 milhão totais) ao empresário.
Entretanto, Cassundé teria repassado R$ 1 milhão à Neoway Soluções Integradas, como revelado pelo Blog do Juca Kfouri, no ano passado. A empresa seria considerada uma "laranja", pois tinha como proprietária Edna Oliveira dos Santos, mulher moradora de Peruíbe, litoral de São Paulo, que desconhecia a informação. No dia de uma das transferências à Neoway, em 25 de março, Cassundé esteve no Parque São Jorge, como consta relatório da Polícia Civil. Em meio ao desgaste, a VaideBet solicitou a rescisão contratual em junho do ano passado.
Após quebras de sigilo bancário, as investigações descobriram outras empresas envolvidas e que estariam ligadas à lavagem de dinheiro para o crime organizado.
Ligação com PCC
A Polícia Civil se baseou em dois conteúdos para fortalecer a hipótese: as oitivas de Rubens Gomes, o Rubão, ex-diretor de futebol, em 8 de agosto do ano passado e 9 de abril de 2025, e uma denúncia anônima apócrifa, em 12 de dezembro. Em ambos os casos, as autoridades citaram possíveis "débitos" de Augusto na campanha presidencial por doações entre 2020 e 2023, além de o dinheiro ter parado em agências de jogadores, caso da UJ.
As doações, segundo a denúncia, vieram de empresários de jogadores da base, casos de Marino Rosa (atuante ao lado de Augusto no União Barbarense), do influenciador digital Buzeira (alvo de operação por suspeita de envolvimento com PCC), Roberto da Magnum (empresário atuante no São Bernardo), laboratório EMS e doleiro do Tatuapé. Além disso, Augusto Melo estaria em dívida com um agiota na zona leste de São Paulo, o qual ameaçaria matá-lo pelo débito.
Entre os nomes destacados com ligação direta e indireta da gestão Augusto Melo com as agências de jogadores e crime organizado são:
- Haroldo Dantas: presidente do Conselho Fiscal do Conselho Deliberativo, que manteve parcerias com a UJ Football;
- Marcos Bocatto: ex-superintendente de novos negócios do Corinthians, com destaque para a presidência de honra do Água Santa, clube citado na denúncia apócrifa como "comandado pelo PCC". Ele teria arrecadado junto a Marcelo Mariano e "Ninja" dinheiro para a campanha de Augusto oriundos das agências de jogadores;
- Buzeira, que teria ligações com a Orcrim, cuja empresa recebera R$ 1 milhão da Victory, envolvida em repasses para a UJ;
- Claudinei Alves e Valmir Costa: ex-diretor da base e ex-adjunto da base e secretário-geral, os quais estiveram com Augusto no clube do interior de São Paulo.
No documento policial, há o destaque para a oitiva de Augusto Melo. Nela, as autoridades entendem que "estranhamente, ao ser indagado sobre Boccatto", o presidente afastado "deu respostas explicitamente evasivas". Ele disse que não sabia da ligação do amigo Marcos Boccatto com o Água Santa, sendo que as redes sociais do dirigente mostram a conexão.
O relatório se utiliza de diversas matérias jornalísticas, chamadas de fontes abertas, para indicar um "rede relacional estável", relembrando algumas chegadas de atletas ao Corinthians, casos do meia Matheus Araújo e do zagueiro Murillo. A dupla era agenciada pela Lion Soccer, vinculada a Danilo, conhecido como "Tripa", que seria operador da UJ, com ligação também ao empresário Thiago Laurindo.
Nesse caso, haveria uma triangulação entre arrecadação da campanha, UJ Football e agente com acesso aparentemente facilitado dentro da estrutura do clube "típica de esquemas de corrupção estrutural".
"A consequência lógica é que os valores que saíram dos cofres do Corinthians chegaram à UJ Football porque assim havia sido previamente ajustado, em um 'pacto' de financiamento, recompensa e silêncio", diz uma das conclusões da Polícia Civil.
Defesa de Augusto Melo
Em nota enviada à imprensa, a defesa de Augusto Melo negou qualquer envolvimento com empresas ligadas à facções criminosas. O mandatário afastado da presidência alega que não há elementos concretos da ligação feita pela polícia, além de citar que não há indícios de práticas ilícitas - veja abaixo.
A defesa do presidente do Sport Club Corinthians Paulista, Augusto Melo, vem a público negar de forma veemente qualquer envolvimento do seu constituinte com organização criminosa, como tem sido veiculado de forma irresponsável por alguns setores da imprensa.
Ressaltamos que não há, até o momento, qualquer elemento concreto que vincule o presidente Augusto Melo a qualquer organização criminosa. A investigação em curso refere-se exclusivamente a um contrato específico com a empresa Vai de Bet, sem que haja qualquer indício que o relacione a práticas ilícitas.
As informações divulgadas a partir de supostos vazamentos carecem de rigor técnico e jurídico, uma vez que o que se observa nos autos é, em grande parte, a repetição de matérias jornalísticas já publicadas — o chamado repique — que, por si só, não têm valor probatório nem relevância penal.
Dessa forma, causa estranheza a tentativa de alimentar narrativas sensacionalistas, sem qualquer fato novo ou fundamento legal que justifique a exposição midiática difamatória. O presidente Augusto Melo permanece à disposição da Justiça para colaborar com qualquer esclarecimento necessário, reafirmando seu compromisso com a ética, a legalidade e a transparência no exercício de suas funções.
Defesa de Augusto Melo
Presidente do Sport Club Corinthians Paulista
