Grupo cria projeto que visa reestruturar gestão no Corinthians; entenda o que é e como funcionaria
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Por Rafael Marcon e Rodrigo Vessoni
No modelo Safiel, a ideia é que o torcedor comum invista no clube e escolhe seus próprios representantes junto com os associados do Parque São Jorge
Wanderson Oliveira / Meu Timão
Nos últimos anos, diversos clubes brasileiros adotaram o modelo de SAF (Sociedade Anônima de Futebol), um sistema mais empresarial e menos tradicional de gestão, para sanar dívidas e resolver problemas políticos. Entre os torcedores do Timão, o tema é frequentemente debatido, aclamado por alguns justamente pelos possíveis benefícios, e retirado por outros já que a primeira ata histórica do clube prevê que o "Corinthians é um time do povo, e o povo é quem vai fazer esse time".
A ideia de, por tempo ilimitado, ter somente um empresário dono de toda a gestão econômica, política e futebolística no time do Parque São Jorge, como manisfestou o atual presidente da Gaviões da Fiel (Alexandre Domênico), talvez bateria de frente contra a própria origem do clube. Mas e se esse "dono" fosse a própria Fiel torcida? Essa é justamente a ideia da Safiel, projeto que visa a reconstrução e profissionalização do futebol do Corinthians pelas mãos da própria torcida.
O Meu Timão entrevistou Carlos Teixeira, um dos idealizadores do projeto, e explica ao torcedor o que é esta ideia de gestão. Confira!

Arte ilustrativa do Safiel que reflete sobre a aderência do um novo modelo de gestão no Corinthians
Divulgação / Safiel
Quem são os idealizadores e o que é o projeto?
Além do empresário do segmento de tecnologia Carlos Teixeira (CEO do projeto), os outros idealizadores principais do Safiel são: o fundador do mercado BitCoin Maurício Chamati (Diretor de Tecnologia), o advogado atuante na área de direito tributário Eduardo Salusse (Diretor Jurídico) e o publicitário Lucas Brasil (Diretor de Comunicação) — conheça mais de cada um no post abaixo:
Teixeira deixou claro logo no início da entrevista que a reforma no estatuto do Corinthians é essencial para que este tipo de projeto seja aprovado. No primeiro momento, ao explicar o que é o projeto, ele definiu que um objetivo primário da Safiel é "pensar na separação das propriedades entre futebol e clube social". Desta forma, o Corinthians passaria a ser admnistrado por conselheiros formados parte por representantes da própria torcida (os investidores do projeto) e parte por membros escolhidos pelos associados do Parque São Jorge — entenda melhor nos próximos tópicos.
Ainda segundo o CEO do projeto, serão alguns pontos cruciais que o Safiel busca compreender e ajustar no clube: Aporte Financeiro, Controle da Gestão, Profissionalização da Empresa, Equação da Dívida, Reestruturação da Credibilidade e Quitação da Neo Química Arena. Para ele, ao tornar todos esses passos possíveis com o projeto, o Corinthians pode vir a ser "a maior potência esportiva e econômica do futebol das Américas".
"O Corinthians hoje está muito abaixo, por exemplo, do Flamengo, quando a gente fala de faturamento recorrente, que é aquele faturamento que não depende da venda de jogador. São receitas com patrocínio, receitas com dias de jogos, etc. O nosso objetivo, então, é atingir o maior faturamento recorrente do Brasil. E tudo isso, respeitando e respaldando o clube social", disse Teixeira no Papo com Vessoni, programa do Meu Timão no Youtube.
Sobre o processo de investimento e os valores das cotas
A Safiel trata-se de um programa de investimentos dos torcedores do Corinthians em cima de cotas do próprio clube. Como o próprio nome diz, investimento é a compra de porcentagens de uma empresa, e espera-se sempre um retorno por isso: é um dinheiro que vai e também deve voltar com margem de lucro, como por exemplo a compra de ações na bolsa de valores.
Carlos Teixeira explica que, diferentemente da Doe Arena Corinthians — a campanha de doações encabeçada pela Gaviões da Fiel para quitação da dívida do Timão com a Caixa Econômica Federal pela construção da Neo Química Arena —, a Safiel não é um projeto de doação, mas sim um projeto onde o torcedor trará aporte financeiro para também o benefício próprio.
“Não é doação, tá? Fui um doador da Arena, adorei a campanha dos Gaviões. Nós precisamos continuar a campanha da doação, mas também precisamos abrir essa discussão para que, através de uma boa gestão, as pessoas possam investir no Corinthians. A marca vai se valorizar e essa pessoa (investidora) também terá um ganho esportivo, porque ela é torcedora, e terá um ganho do seu investimento. Ninguém vai pegar a sua poupança e simplesmente comprar uma cota sem ter certeza que esse dinheiro vai ser bem cuidado. Então, não é doação, é investimento”, explica o CEO.
A ideia dos idealizadores é que todo torcedor possa comprar cotas. Os valores iniciais idealizados variam de R$ 2,5 mil a R$ 10 milhões, em seis categorias diferentes. Ainda há uma sétima a parte, chamada de cota "Organizada", onde o torcedor sócio de uma das principais organizadas do clube poderá adquirir cotas de R$ 50. Mesmo sendo escrito desta maneira, Teixeira revelou que ideias inovadoras, como cotas mais baratas, são bem-vindas e estão sendo estudadas.
“Já ouvimos de algumas pessoas que a nossa cota mais barata, que é de R$ 2.500, pode ser cara para muita gente. Então a gente pode pensar em uma cota mais barata que essa, cota para todos os bolsos. Também precisamos ter cotas de valor alto, porque a gente precisa captar um bilhão e meio. Não dá para captar esse valor com todos os preços populares. Precisamos fazer aquela conta do estádio, sabe? O ingresso da norte e da sul são mais baratos e quem senta na oeste paga mais caro (analogia com o estádio). É assim que funciona a nossa lógica de captação”, afirma..
Haveria limitação de cotas?
Como a ideia do grupo idealizador não é dar um passo maior que a perna, a ideia inicial se baseia na seguinte estrutura:
- Cota Bateria (a de R$ 10 milhões) - 76 "unidades" disponíveis
- Cota Mosaico (valor não informado) - 150 "unidades" disponíveis
- Cota Numerada (valor não informado) - 500 "unidades" disponíveis
- Cota Arquibancada (valor não informado) - 1000 "unidades" disponíveis
- Cota Tobogã (valor não informado) - 5000 "unidades" disponíveis
- Cota Bandeirão (a de R$ 2500) - 25.000 "unidades" disponíveis
- Cota Organizada (a de R$ 50, exclusiva ao torcedor organizado) - até 50.000 "unidades" disponíveis
A estratégia de urgência é levada em conta, para que o torcedor que queira investir, dê esse passo sem deixar para um outro momento. Porém, segundo o próprio Carlos Teixeira, caso a demanda por maior, um futuro do Safiel pretende incluir mais cotas disponíveis. “Nós precisamos gerar alguma sensação no torcedor de que só vai comprar cota quem reservar. Se essa demanda for grande, aí nós podemos, eventualmente, discutir uma nova rodada de captação e inclusão de mais, mas nesse primeiro momento a gente precisa limitar", explica.
“A gente precisa criar no torcedor aquela história de que, olha, nós temos um número de ingressos limitados no estádio, por exemplo. Se as pessoas pensassem que, olha, eu posso comprar o ingresso do Corinthians na hora que eu quiser porque nunca vai faltar lugar, provavelmente elas deixariam para depois. Então, nós limitamos o número de cotas para poder gerar escassez de cotas e, obviamente, esse ser um fator de atração mais contundente para quem acredita no projeto fazer rapidamente a sua reserva para poder investir”, Teixeira continuou na explicação.
Modelo de gestão e atuação política
Basicamente, o Safiel segue um modelo de gestão com três camadas: os proprietários (torcedores investidores), a camada de governância (Conselho de Administração e Conselho Fiscal) e a camada de gestão (a atuação do CEO, espécie de "presidente" do Corinthians nesta forma de gestão). Segundo Carlos Teixeira, o torcedor investidor fará o papel de "dono" do clube (proprietários). Porém, terá atuação indireta, já que vai eleger as pessoas que realmente vão gerir o ambiente.
O Conselho de Administração é dividido em cinco representantes. Três deles seriam escolhidos pelos investidores das cotas Numeradas e Arquibancadas, Mosaico e Bateria — cada uma das três categorias escolhe um representante próprio. Os outros dois seriam escolhidos pelos associados do clube social, ou seja, do Parque São Jorge.
Já o Conselho de Fiscalização terá novos cinco representantes, mas de uma separação diferente. Neste, dois representantes seriam escolhidos pelos investidores das cotas Tobogã e Bandeirão e Organizada — cada uma das duas categorias escolhe um representante próprio. Desta vez, os outros três representantes seriam escolhidos pelos associados do clube social. Entenda na arte:

Divulgação / Safiel
A partir do momento em que os conselheiros estivessem definidos, o Conselho de Administração definiria e contrataria o CEO do clube, enquanto o de Fiscalização teria a finalidade de fiscalizar a gestão do profissional contratado. Aqui, vale ressaltar, é um "emprego", então o CEO pode permanecer no clube por muitos anos ou ser demitido caso não cumprir as metas.
Empresas também poderão investir nas cotas?
Direto, Carlos Teixeira respondeu a pergunta sem descartar a possibilidade: “Nesse momento, apenas CPF (Pessoa física). A questão do envolvimento de empresas (CNPJ) e coisas desse tipo, nós temos no nosso horizonte, mas lá para frente, quando a gente transformar isso num modelo semelhante ao modelo do Bayern (de Munique, um clube alemão)”.
Qual é o prazo para o retorno do investimento?
Carlos Teixeira explica que o investimento é longo prazo. Na previsão do grupo da Safiel, o torcedor investidor teria de esperar, no mínimo, cinco anos para vender suas cotas ou retirar o investimento.
“Quem fizer esse investimento precisa saber que não poderá retirá-lo por um período longo. Então, se você quiser comprar uma cota, você tem que estar ciente que durante pelo menos cinco anos você não vai receber esse dinheiro. Esse dinheiro vai ficar retido na operação", explica Teixeira sobre o funcionamento.
E quando é que quem comprou essa cota vai conseguir rentabilizar esse investimento? A ideia é que o clube volta a recuperar as economias e, com as finanças em dia, acresça o valor agregado da marca e, portanto, das cotas. Teixeira prevê, ao menos, uma duplicação do valor nestes cinco anos e prega pela transparência nesse processo de valorização.
“O Corinthians será o primeiro clube brasileiro a fazer uma oferta de ações na Bolsa de Valores. Nesse momento (depois dos anos de gestão), os R$ 2.500 que você investiu vão valer muito mais. Nós vamos mostrar as projeções financeiras para todo mundo. Nós vamos mostrar como as finanças do Corinthians vão evoluir ao longo desses cinco anos, quais as receitas que vão crescer e como vão crescer, e quais as despesas que vão diminuir e como vão diminuir", revela o empresário.
"Isso é o que toda empresa que vai abrir capital na Bolsa faz da transparência para as suas metas de gestão, para os seus números. E através dessa seriedade, do currículo das pessoas que estão à frente dessa operação, o mercado vai olhar e vai dizer, realmente, que essa operação está fundamentada para ser precificada agora, por exemplo, em 10 bilhões de reais. E se for precificado a 10 bilhões, a sua cota de 2,500 vai valer 5 mil, porque ela vai valorizar 100% (exemplo)”, conclui.
E se o projeto não der certo?
Segundo Carlos Teixeira, a segurança do projeto está já na forma que foi estruturado: "A resposta (para segurança do investidor) é que nós vamos captar esse valor com muita facilidade, desde que aqueles princípios que foram listado sejam respeitados. Então, com independência da gestão, esse valor será captado".
Mas e supondo que o projeto realmente entre em vigor um dia no Corinthians, as coisas acabam não funcionando, grande parte da torcida acaba não aderindo ao Safiel e as previsões desmoronam. Aquele torcedor investidor vai perder todo o dinheiro que injetou no clube?
"Bom, excelente pergunta. Esse dinheiro, vamos imaginar que, sei lá, entrou uma crise de Covid no meio desse processo. Esses processos de captação, normalmente você tem um banco que faz a custódia do investimento. Então, até que a operação seja fechada e assinada, o dinheiro do investidor não vai para a operação", explicou Teixeira.
"O dinheiro fica numa conta custodiada, uma espécie de conta que o banco tem um mandato já logo de cara para operar essa conta e o banco é instruído, se der algum problema com a operação. Se na última hora quem ia assinar desistiu, automaticamente o banco, em vez de depositar aquele valor na conta da SAF, ele volta o dinheiro para o investidor", finalizou a entrevista.
