Resposta insatisfatória e sem prazo: veja estágio do inquérito policial entre Corinthians e Vaidebet
12 mil visualizações 110 comentários Reportar erro
Por Matheus Fiuza
Corinthians e Vaidebet romperam a parceria em julho após polêmicas na intermediação do acordo
Jozzu/Agência Corinthians
Estagnado. Este é o termo que define o atual estágio das investigações policiais no acordo entre Corinthians e a ex-patrocinadora Vaidebet. Após seis meses, a Polícia Civil ainda busca novas respostas para o suposto esquema de "laranja" envolvido na intermediação do contrato.
As soluções poderiam ter outro rumo neste mês, com o agendamento das oitivas de José André da Rocha Neto e André Murilo de Barros Paz Bezerra, proprietário e diretor financeiro da VaideBet, respectivamente. No entanto, o depoimento de ambos precisou ser adiado duas vezes.
Em entrevista ao Meu Timão, o delegado Tiago Fernando Correia, responsável pelo caso no Departamento de Polícia de Proteção a Cidadania (DPPC) e da terceira delegacia, abordou os principais imbróglios para o andamento do inquérito. Em meio ao segundo adiamento, com ofício de redesignação para depois de 2 de dezembro, Correia crê que em 15 dias os depoimentos ocorram.
"Não tem (data). Ainda não remarquei porque preciso adequar meu horário junto ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), sempre fazemos isso em conjunto. Talvez para semana que vem ou para a outra", explicou.
Os dois nomes da empresa de apostas não são os únicos à espera. Luiz Fernando Alves, mais conhecido como Seedorf, superintendente financeiro do Timão, foi convocado a depor para o inquérito, seguindo a linha de outros nomes ligados ao clube, caso de Yun Ki Lee, ex-diretor jurídico.
"Neste estágio da investigação, aguardamos a grande maioria das respostas das instituições financeiras, mas ele (Seedorf) é quem está faltando. Ele deve ser ouvido na outra semana junto aos representantes da Vaidebet", comentou Tiago.
Obstáculos para o andamento
O principal empecilho, na visão do delegado, está na quebra de sigilo bancário da Neoway Soluções Integradas e Serviços. Em julho, houve determinação da Justiça para abertura das transações, mas apenas a Caixa Econômica Federal, dentre as instituções financeiras, encaminhou, parcialmente, informações sobre a Neoway. A empresa fantasma teria recebido R$ 900 mil da Rede Social Media Design, intermediadora do acordo e que tem Alex Cassundé como sócio.
"Veremos se tem mais alguém do clube que precisa ser ouvido e aguardar outras providências solicitadas. Por incrível que pareça, a quebra de sigilo das contas bancárias da Neoway e Edna (Oliveira Santos, listada como sócio, mas que desconhece a informação), apenas um banco respondeu, ainda parcialmente. Estamos aguardando para encaminhar para um desfecho", disse Correia.
Apesar do longo tempo, Tiago vê um prazo razoável para a investigação, mas acredita que poderia ter tido maior celeridade no processo. Isso porque a colaboração junto às instituições financeiras e o Poder Judiciário necessita de sinergia e atenção de todas as partes. A Polícia Civil ainda aguarda a aprovação para descobrir os destinatários do dinheiro recebido pela Neoway.
"É um tempo normal para investigação de lavagem. Sempre precisamos da cooperação de órgão privados. O que retarda é a cooperação com órgãos públicos e entidades privadas, porque às vezes não respondem e você precisa reiterar mais de uma vez. Isso retarda o desfecho da apuração. O Judiciário pede um ofício e dá 30 dias para as instituições financeiras responderem. Dependendo da instituição, às vezes tem outras demandas, tem uma ordem do que chega e não se atenta àquilo, acaba se perdendo no e-mail. Vamos solicitando a reiteração enquanto efetivamente não houver resposta".
"Quando falamos em lavagem (de dinheiro), temos que seguir o rastro do dinheiro. Paramos na Neoway e precisamos saber para onde foi o dinheiro, acompanhando para quem foi o destinatário", concluiu.
Colaboração do Corinthians e intermediadoras
Em meio às idas e vindas nas investigações, o Corinthians, cuja instituição é tratada como vítima, foi pouco acionado. O delegado explicou como foram os dois contatos junto à Polícia, com sentimentos distintos no processo.
"Nós só questionamos duas vezes. Uma quando era o (Leonardo, ex-diretor jurídico) Panteleão, que nos respondeu prontamente. E nessa última das três outras intermediadoras, e nesse caso reiteramos o ofício. Fizemos uma primeira porque o Corinthians não respondeu em um prazo razoável, cerca de dez dias. Fizemos outra e responderam no limite. Sempre que precisei, eles responderam", disse.
As intermediadoras citadas por Correia levaram à notificação do clube. A VaideBet realizou o pagamento de R$ 56 milhões ao Corinthians utilizando três empresas intermediadoras: Otsafe – Intermediação de Negócios; e dois CNPJs distintos da Pagfast EFX Facilitadora de Pagamentos. Porém, as três não estavam no contrato.
A ex-patrocinadora poderia efetuar os pagamentos por meio de outras duas empresas: a Zelu Brasil e a Pay Brokers, ambas investigadas na Operação Integration da Polícia Civil de Pernambuco por lavagem de dinheiro a - Pay Brokers chegou a repassar R$ 10 milhões aos cofres alvinegros. Se houvesse autorização e aprovação do clube após pedido por escrito da Vaidebet, a casa de apostas poderia utilizar intermediadoras diferentes.
O clube argumentou, em novembro, que a Vaidebet informou que pagaria os valores diariamente conforme o fluxo do repasse das apostas na plataforma e que houve um ajuste verbal entre clube e a patrocinadora para o pagamento da quantia. No entanto, o clube não localizou o documento que ratifica a aprovação de maneira informal.
"A resposta foi bastante insatisfatória. O clube falou que não tinha localizado a autorização escrita para fundamentar pelas outras três intermediadoras. A alegação é que as três surgiram quando os pagamentos começaram a ser diários, o que é uma inverdade. Os pagamentos começaram a ser diários em meados de fevereiro, mas a primeira empresa que pagou o Corinthians, R$ 20 milhões em janeiro, já foi uma dessas empresas. A argumentação desaba por si própria", afirmou o delegado.
Com a indefinição de uma data para o fim do inquérito, Tiago deixa a porta aberta para um mar de possibilidades quanto ao crime cometido. O delegado reiterou o desejo na colaboração dos outros órgãos envolvidos para dar luz à investigação, que serviu como base para o pedido de impeachment do Corinthians contra o presidente Augusto Melo, cuja votação está marcada para a próxima segunda-feira, dia 2, no Parque São Jorge.
"O inquérito apura provável desvio de dinheiro do clube. Temos algumas opções, como furto qualificado, apropriação em débito, corrupção privada no esporte, que é um crime na Lei Geral do Esporte. Estão incluídos no objeto da investigação de lavagem de dinheiro, e vai depender do desfecho do caso a capitulação".
"Não consigo precisar um prazo, por conta disso de cooperação de outros órgãos. Quando as instituições responderam com as quebras, talvez precise quebrar sigilo de outra empresa, porque vai rastrear o dinheiro. Da Neoway foi para X, da X para Y, Y para Z, seguir o rastro deixado pelo dinheiro", finalizou.
Entenda o caso
Em maio de 2024, a Polícia Civil abriu um inquérito para investigar um possível caso de lavagem de dinheiro no contrato de patrocínio firmado entre Corinthians e VaideBet. O acordo, que se tornou o maior no âmbito esportivo no Brasil, havia sido anunciado pelo Corinthians no início de janeiro e tinha validade até o fim de 2026, com pagamento total de R$ 370 milhões.
As investigações começaram após denúncia do Blog Juca Kfouri de que a Rede Social Media Design LTDA, empresa apontada como intermediadora do negócio entre Corinthians e VaideBet, teria feito o repasse de R$ 900 mil da sua comissão a uma empresa fantasma, a Neoway Soluções Integradas e Serviços.
O caso levou a casa de apostas a romper seu vínculo com o Corinthians em julho. Desde a abertura do inquérito, diretores e ex-diretores do Timão já foram ouvidos pela Polícia Civil, além de Alex Cassundé, sócio da Rede Social Media Design LTDA. Entretanto, nomes como Augusto Melo, atual presidente do Corinthians, Marcelo Mariano, diretor administrativo, e Sérgio Moura, ex-superintendente de marketing do clube, ainda devem ser convocados.
